Quem se beneficia com a alta da taxa básica de juros?

O texto de hoje aborda um assunto atual no mundo acadêmico, econômico, político e principalmente social: A alta da taxa básica de juros na economia brasileira!

Não tenho intenção de abordar o tema em profundidade tampouco chegar num consenso com vocês leitores, sobre as decisões tomadas pelo Presidente do Banco Central em torno da manutenção da taxa básica de juros, e eu explico o porquê. Primeiro, porque o assunto é de extrema complexidade e não conseguiríamos estressá-lo em profundidade neste espaço. Segundo ponto é que uma abordagem em profundidade necessitaria de utilização de termos técnicos e muito economiquês e esse não é o objetivo. E o terceiro ponto, talvez seja o mais importante, é que não tenho a intenção de chegar num consenso sobre assunto, afinal, economia é uma ciência social e não exata, portanto é comum que haja divergências de perspectivas de economistas sobre o tema. Contudo, os agentes econômicos: famílias, empresas, entidades de classe e governo chegaram em um consenso: a taxa básica de juros em 13,75% é inviável!

Nesse sentido, o Presidente Lula, o Ministro da Fazenda Fernando Haddad e a Ministra do Planejamento Simone Tebet apresentam posições política, social e econômica de curto prazo, pressionando o presidente do Banco Central, Campos Neto a reduzir a taxa para que haja crescimento na economia produtiva, aumento de emprego e consequentemente no consumo e bem-estar social.

Já Josué Gomes, Presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) disse que a taxa SELIC em 13,75% é “pornográfica” para a nossa realidade. Disse ainda que a taxa de juros adequada e uma reforma tributária trará isonomia e competitividade para o setor. “Nos ofereçam as mesmas condições oferecidas ao agro que teremos uma indústria pop, tech e tudo”, afirmou o Presidente.

Luiza Trajano, Presidente do Conselho de Administração da Magazine Luiza, também se posicionou contra a decisão, dizendo: “… Quando é que temos que ter o juro alto? Quando a economia está com excesso de consumo. Alguém aqui está com excesso de consumo – a não ser farmácia? Não tem excesso de consumo, pelo contrário, então não tem razão dos juros estar alto?…. Onde já se viu, o juro estar a 13,75%? Eu estou gritando em tudo quanto é lugar, não tem cabimento”, concluiu a empresária.

Por outro lado, Campos Neto justifica e associa manutenção da alta taxa básica de juros a uma inflação de demanda e a um risco fiscal. Porém, é necessário realizar um diagnóstico assertivo sobre as causas da inflação. Ou seja, nem sempre a inflação é causada por excesso de demanda.

É preciso levar em consideração que a economia mundial ficou desorganizada, por conta da crise do Coronavírus, causando choque negativo de oferta na cadeia produtiva mundial. Como fator agravante, tivemos e ainda vivenciamos a guerra da Rússia e da Ucrânia, puxando os preços da energia, petróleo, fertilizantes e dos alimentos para cima.

Sintetizando, a alta taxa de juros dificulta crédito para as famílias consumirem produtos e serviços das empresas; se as famílias não consomem, as empresas deixam de produzir e de vender; se as empresas deixam de produzir e de vender o governo deixa de arrecadar. Além disso, o aumento da taxa de juros aumenta o nível de endividamento do governo e das empresas engessando a capacidade dos investimentos.

A reflexão que fica é: Pode-se aumentar as despesas com pagamento dos juros da dívida pública do governo, mas não pode aumentar o investimento em áreas primordiais para bom funcionalismo público e o bem-estar social? E ainda, se os agentes (famílias, empresas e governo) de uma economia perdem com uma alta taxa de juros, quem se beneficia?

Bruno Castro, Professor de gestão do Centro Paula Souza e pesquisador convidado da CONJUSCS (USCS)