às vezes eu acho que a vida é basicamente uma grande fila desorganizada. você tá lá, quieto, esperando sua vez chegar, acreditando que finalmente vai dar tudo certo, quando, do nada, alguém simplesmente passa na sua frente. sem explicação, sem desculpa, sem olhar pra trás. e o pior é que você só aceita, porque não tem energia pra discutir. a vida te passa a perna e você agradece por não ter sido pior.
a verdade é que a gente passa grande parte do tempo nessa posição desconfortável de “quase”. quase conseguindo, quase chegando, quase dando certo. e enquanto isso, sempre tem alguém que chegou depois e, de alguma forma misteriosa, já tá sendo atendido. não por maldade, mas porque a vida funciona nesse modo aleatório que ninguém entende. parece um sistema de senha que você puxa 74 e o painel chama 12, depois 95, depois 3, depois 74 mas você tava no banheiro.
no fundo, a gente vai engolindo essas pequenas injustiças cotidianas porque escolher brigar por cada uma delas seria insustentável. não dá pra enfrentar a vida o tempo inteiro. às vezes é melhor respirar fundo, ajustar a postura e continuar esperando. ou, pelo menos, tentando não enlouquecer no processo.
e eu sei que, em teoria, deveríamos exigir nossos direitos, questionar, reclamar, bater o pé. mas a maioria de nós tá cansada demais pra ser militante da própria existência todos os dias. então a gente aceita. e segue. não por submissão, mas por pura falta de bateria emocional.
no fim das contas, a vida como fila é isso: um caos silencioso onde você tenta manter a calma, tenta acreditar que sua vez vai chegar e tenta não surtar quando alguém simplesmente brota na sua frente como se fosse personagem principal da série e você fosse figurante.
mas, de alguma forma, a gente vai. sempre vai. porque mesmo quando nada faz sentido, ainda existe aquela esperança boba (e teimosa) de que, em algum momento, o painel vai chamar seu número. e você, finalmente, vai ser atendido.
enrico pierro
@enricopierroofc (Instagram, TikTok, X e Threads) e em seu blog: https://enricopierro.com.br/
escreve semanalmente para mais de 40 jornais e portais pelo brasil. seus textos também estão disponíveis nas redes sociais, onde compartilha reflexões sobre o cotidiano, sentimentos e humanidade.