Banalização da vida

A filósofa alemã Hannah Arendt, escrevendo sobre o holocausto na Segunda Guerra Mundial, cunhou o conceito banalidade do mal. Em certo sentido, podemos parafraseá-lo pela expressão banalização da vida.

As estatísticas de mortes violentas no Brasil se avolumam especialmente em relação às pessoas negras, jovens, pobres e mulheres. Os massacres nas periferias são repetitivos. Os índices de feminicídio são alarmantes. Nestes últimos dias cresce a indignação popular pela violência contra animais.

No contexto global, temos o holocausto do povo palestino, perpetrado pelo governo de Israel. Apesar do propalado acordo de paz, continuam as notícias de morte de grande número de pessoas de todas as faixas etárias, muitas delas civis.

Neste último final de semana foram divulgadas partes dos chamados Arquivos Epstein. Jornalistas e outras pessoas da mais absoluta credibilidade, que acessaram esses arquivos, dizem que contém relatos, por textos, fotos e vídeos, das maiores bestialidades humanas que se possa imaginar, num abuso total principalmente contra crianças e adolescentes. Abusos que têm como protagonista a alta elite norte-americana. Mesmo o presidente Trump aparece nos documentos.

O que esses casos têm em comum? Evidentemente a banalização da vida.

Estudos apontam que as causas da violência são as mais complexas possíveis, advertindo sobre juízos precipitados e infundados. Porém é perfeitamente possível pensar que em uma situação de violência existe necessariamente dois polos, o do agressor e o da vítima. Portanto, trata-se de uma questão de poder, ainda que as legislações preservem o princípio da legítima defesa.

A partir daí, pode-se pensar que, em se tratando de uma questão de poder, possivelmente excluindo-se a violência doméstica, miúda, porém não menos efetiva, temos que levar em conta, necessariamente, as questões políticas e econômicas. Não sem outro sentido foi montada toda uma indústria do chamado entretenimento, que no fundo, faz apologia da violência, da morte, da banalização da vida, levando à naturalização e aceitação dessas realidades.

Violência e banalização da vida merecem o maior repúdio possível da sociedade. Porém o repúdio não pode ser, como no caso dos Arquivos Epstein, apenas de ordem moral. Eles apontam para o projeto de dominação a que estamos submetidos em todos os níveis, principalmente nas relações entre países.

Somos chamados a repudiar com todas as forças a banalização da vida. Como também, projetos de dominação dos poderosos sobre os mais vulneráveis.

Luiz Eduardo Prates
luizprts@hotmail.com