O Samba como Crônica do Tempo

O desfile na Sapucaí e no Anhembi este ano reafirmou uma verdade antiga: a passarela do samba é um espelho do país. Quando as agremiações decidem levar temas políticos para o enredo, elas não estão apenas desfilando; estão traduzindo os sentimentos, as dores e as esperanças de suas comunidades em forma de arte visual e poesia rítmica.

A política no samba não é um “lado” em uma planilha, mas uma vivência. Vimos alas que questionaram a história oficial, carros alegóricos que satirizaram figuras de autoridade e enredos que exaltaram heróis esquecidos. O tom, embora carregado de crítica, manteve a leveza característica da festa. Afinal, o Carnaval tem o poder único de apontar o dedo para os problemas enquanto celebra a resistência da cultura.

Essa mistura de política e folia pode gerar debate, mas é justamente aí que reside a riqueza da festa. O Carnaval é, por essência, o momento em que a hierarquia se inverte e o povo assume o protagonismo da narrativa nacional. Independentemente de convicções individuais, é fascinante observar como o samba consegue transformar o debate árido do dia a dia em um espetáculo de cores e sons que convida à reflexão.

No fim das contas, a nota dez vai para a capacidade das escolas de manterem o Carnaval vivo como um espaço de liberdade de expressão, onde a crítica e a alegria caminham de mãos dadas, sem perder o ritmo.

A direção