Ao somar quatro anos de gestão pública à liderança de uma software house fundada em 1992, acompanho de perto o amadurecimento e os nós críticos das sete cidades do ABC. Historicamente, saímos das montanhas de processos físicos para os sistemas eletrônicos. No entanto, precisamos ser honestos: na maioria das vezes, não eliminamos a burocracia; apenas a digitalizamos.
Nos últimos três anos, houve um movimento expressivo na região: cerca de 85% das prefeituras do ABC lançaram ou atualizaram programas de “Papel Zero”. É fato que todas avançaram na digitalização – usando sistemas como o SEI em Santo André ou o Solar BPM em São Bernardo -, e o famoso “Sem Papel”, mas a percepção de “burocracia” ainda persiste porque o foco tem sido substituir o papel, e não necessariamente redesenhar o serviço para o cidadão. O cidadão ainda se vê preso a fluxos complexos, apenas em uma tela diferente.
A verdadeira inovação exige uma Cultura Digital integrada, algo que a Estônia – referência global em e-government – resolveu com o princípio legal do Once Only (Apenas Uma Vez). Lá, o Estado é proibido por lei de pedir uma informação que já possua em qualquer banco de dados. O resultado? 99% dos serviços são online, poupando milhões de horas de trabalho e tornando as filas algo do século passado.
Para o ABC dar esse salto, a mudança deve ser estrutural, diminuir o “sobe processo, desce processo”. Precisamos integrar sistemas via APIs e automatizar a triagem de dados, mas, acima de tudo, é vital capacitar o servidor para que ele deixe de ser um “carimbador virtual” e se torne um facilitador.
A nossa região, berço da indústria, tem tudo para liderar a cidadania digital no país, desde que a tecnologia deixe de ser tratada como vitrine e passe a ser, de fato, política de Estado.