As projeções para o mercado imobiliário estão mais favoráveis, após um período marcado por juros elevados e crédito restrito. Segundo a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), a perspectiva de redução da taxa básica (Selic) já interfere nas decisões de compra e deve ampliar o potencial de valorização do setor.
A taxa encerrou o ano passado em 15%, enquanto a mediana das projeções do relatório Focus, divulgado pelo Banco Central do Brasil, aponta para 12,25% ao fim de 2026. A Abecip destaca que o mercado já opera considerando um novo ciclo monetário, movimento que sustenta a projeção de crescimento de 16% no setor ao longo deste ano.
A perspectiva de cortes começou a produzir efeitos ainda no fim de 2025. De acordo com a associação, bancos e demais agentes financeiros passaram a reduzir gradualmente as taxas de financiamento, impulsionados tanto pela expectativa de juros menores quanto pela liberação de recursos do compulsório. A tendência, segundo a entidade, é de que a melhora avance desde que o cenário inflacionário permaneça controlado.
Essa melhoria no crédito beneficia quem pretende comprar um imóvel novo, usado ou buscar oportunidades em leilões, modalidade que inclui disputas judiciais e extrajudiciais, e que podem ser encontradas no leilão de imóveis do banco Santander e de outros agentes financeiros. O presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França, afirma que cada corte, mesmo que moderado, recoloca milhares de brasileiros no mercado e amplia as possibilidades de aquisição de moradia.
Com base em dados do Banco Central, a Abrainc calcula que o impacto mais forte das mudanças na Selic aparece cerca de seis meses após a alteração da taxa. Pelas suas estimativas, uma redução de 0,25 ponto percentual poderia ampliar o acesso ao financiamento para ao menos 215 mil novas famílias.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Em 2025, aproximadamente 1,3 milhão de imóveis foram financiados no país. Para 2026, a estimativa da Abecip é alcançar cerca de 1,45 milhão de unidades, refletindo condições de crédito mais favoráveis e maior previsibilidade do ambiente macroeconômico.
Leilões acompanham novo momento do crédito
A perspectiva de financiamento mais acessível também influencia o mercado de propriedades levadas a leilão. Após volumes recordes em 2025, com cerca de 116,6 mil imóveis ofertados somente no primeiro semestre, segundo a Associação Brasileira dos Arrematantes de Imóveis (Abraim), a modalidade inicia o ano com expectativa de continuidade de crescimento.
A leiloeira e presidente da Comissão de Leilões da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Rio de Janeiro (AOB-RJ), Juliana Araújo, afirma em seu perfil no Instagram que a expansão também passa pela mudança do perfil do comprador, com presença crescente de famílias e de investidores mais jovens em busca de preços mais competitivos.
Nas grandes capitais, como os imóveis em leilão no Rio de Janeiro, a presença desse novo perfil é de um público mais novo. Segundo pesquisa da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário do Rio de Janeiro (Ademi-RJ), a compra da casa própria este ano será prioridade para mais de 50% dos cariocas, com destaque para jovens de 18 a 24 anos.
A digitalização das plataformas também impulsiona a procura. Com etapas realizadas de forma remota, participantes conseguem avaliar documentação, comparar condições e acompanhar disputas à distância. Em praças de maior volume, como no caso das casas em leilão em São Paulo, a facilidade de acesso amplia a concorrência e acelera decisões.
“A expansão dos leilões eletrônicos e o ganho de velocidade nas plataformas digitais tornam o processo mais acessível, transparente e competitivo, atraindo um público novo e mais conectado”, analisa Araújo.
Minha Casa Minha Vida impulsiona o setor e a retomada da Construção
O momento de reequilíbrio do mercado também passa pelo desempenho dos programas habitacionais e pelo ritmo da construção civil. Relatório da Brain Inteligência Estratégica aponta que, além dos ajustes econômicos, novas frentes de investimento e maior seletividade entre segmentos ajudam a explicar o momento atual.
Para a consultoria, o Minha Casa Minha Vida (MCMV) permanece como principal indutor da atividade, mantendo resultados positivos em diferentes faixas de renda. A expectativa é de que o programa concentre a maior parte dos lançamentos ao longo do ano.
A meta do governo federal é contratar mais um milhão de unidades em 2026, elevando para três milhões o total de moradias financiadas desde 2023. O ministro das Cidades, Jader Filho, atribui parte desse avanço à ampliação do público atendido, que passou a incluir famílias com renda de até R$ 12 mil mensais. Segundo ele, o programa já responde por cerca de 85% dos novos empreendimentos imobiliários do país.
Na avaliação da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o setor terminou 2025 enfraquecido em parte dos indicadores, mas deve apresentar recomposição gradual neste ano com ampliação dos instrumentos de financiamento habitacional, a oferta de crédito específico para reformas e a consolidação da Faixa 4 do MCMV.
O presidente da Câmara, Renato Correia, ressalta que o ambiente ainda é sensível ao custo do crédito. “Os juros em níveis elevados pesam bastante sobre a construção, porque encarecem o financiamento, tanto para quem produz quanto para quem compra, e acabam retardando decisões importantes de investimento. Uma redução consistente das taxas de juros é fundamental para destravar investimentos e dar mais previsibilidade ao setor”, conclui.