SAMU 192 no ABC: mais do que ambulâncias, uma política pública em ação

Por Humberto Tobé e Fatima Christine

O ABC Paulista é uma das regiões mais dinâmicas do país, com intenso fluxo diário de trabalhadores, grande concentração industrial e importantes rodovias, cada minuto faz diferença quando ocorre um acidente ou uma emergência clínica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região concentra uma população superior a 2,8 milhões de habitantes, distribuída em sete municípios, o que amplia a demanda por serviços de urgência e emergência.

O anúncio da destinação de 54 ambulâncias para os sete municípios do Grande ABC, por meio do Novo PAC Saúde, representa um importante investimento na infraestrutura pública. Mais do que ampliar ou renovar uma frota, a iniciativa abre espaço para uma reflexão sobre um aspecto frequentemente negligenciado: a qualidade da gestão pública.

Dos 54 veículos destinados à região, 51 serão utilizados para substituir ambulâncias em operação e apenas três ampliarão a capacidade do serviço. O dado evidencia que o maior desafio não está apenas na expansão da estrutura, mas na manutenção da capacidade operacional do patrimônio público. Renovar equipamentos significa reduzir custos de manutenção, evitar paralisações, aumentar a disponibilidade dos veículos e assegurar maior eficiência na prestação dos serviços à população.

No atendimento pré-hospitalar, existe o chamado “tempo-ouro”, o período em que uma resposta rápida pode reduzir sequelas permanentes e aumentar significativamente as chances de sobrevivência. Para que esse princípio se transforme em realidade, não basta contar com profissionais qualificados. É indispensável que a frota de ambulâncias esteja disponível, moderna e em condições adequadas de operação.

A renovação da frota do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) deve ser compreendida como uma política pública estruturante, e não apenas como a substituição de veículos antigos. Ambulâncias envelhecidas exigem mais manutenção, apresentam maior risco de indisponibilidade e comprometem a capacidade de resposta justamente quando o sistema é mais exigido. Em uma região marcada por congestionamentos e elevada circulação de pessoas, cada veículo fora de operação representa um tempo de espera maior para quem precisa de atendimento imediato.

Em Santo André, por exemplo, a informatização do sistema e sua integração ao Centro de Operações Integradas (COI) permitiram reduzir o tempo médio de resposta para aproximadamente 12 minutos, além de melhorar o monitoramento em tempo real das ocorrências e a coordenação entre diferentes serviços públicos. Isso demonstra que tecnologia, gestão e renovação da frota são dimensões complementares de uma mesma política pública.

Garantir ambulâncias novas e bem mantidas não é apenas uma questão administrativa; é uma escolha que impacta diretamente vidas humanas. A continuidade dos investimentos em renovação da frota, manutenção preventiva, tecnologia de regulação e integração regional deve permanecer como prioridade dos gestores públicos. Afinal, quando uma emergência acontece, o relógio não espera. E, no ABC Paulista, salvar minutos significa, literalmente, salvar vidas.

Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.

Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional.