Villare ensina política sem orientar o voto

A política entra na sala de aula da Escola Villare, em São Caetano, como matéria de estudo. Nas aulas de História e Filosofia do Ensino Médio, os estudantes analisam instituições, documentos, discursos e disputas de ideias para compreender como se organizam a vida pública e a democracia. A escolha de candidatos e partidos permanece no campo individual.

O tema ganhou novo impulso com a Lei nº 15.468, sancionada em 13 de julho, que incluiu educação política e direitos da cidadania como conteúdo obrigatório da educação básica, dentro do estudo da realidade social e política. O texto da lei está disponível aqui.

Em ano eleitoral, o desafio envolve formar jovens capazes de interpretar a política sem transformar a escola em espaço de disputa partidária. A preocupação também responde a um receio presente no debate público: famílias podem confundir o estudo de política com tentativa de conduzir os alunos a uma posição ideológica. Na Villare, o trabalho já integrava o currículo antes da mudança na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

“O curso nunca vai pedir ao aluno: ‘essa é a verdade’. Ele será convidado a pensar o que Marx disse sobre determinado tema, o que Locke disse e o que Hobbes disse”, afirma David Campbell Mathieson, professor de Filosofia há 15 anos na escola.

A pluralidade surge do contato com autores que formularam respostas distintas para os conflitos de seu tempo. Cada pensamento é estudado em seu contexto antes de ser confrontado com outros. Filmes, séries e manifestações artísticas também entram como disparadores.

Ao tratar de Maquiavel e do realismo político, por exemplo, Mathieson recorre ao filme “Oppenheimer” e à decisão dos Estados Unidos de desenvolver e usar a bomba atômica na Segunda Guerra Mundial. Os estudantes encontram argumentos ligados ao pacifismo e ao cálculo estratégico de poder. A discussão exige que sustentem uma tese e aceitem a possibilidade de refutação.

Nas aulas de História, Guilherme Santos organiza a educação política em duas frentes. A primeira trata da formação e do funcionamento das instituições, da democracia grega às estruturas do Estado brasileiro definidas pela Constituição de 1988. A outra investiga quem participou das decisões políticas, quais grupos ficaram excluídos e como foram conquistados espaços de representação.

Temas como Era Vargas, República de 1946, ditadura militar, redemocratização e Constituição de 1988 ajudam os estudantes a compreender regras que organizam a política brasileira atual. Constituições, leis, manifestos, jornais e documentos de movimentos sociais entram na aula como fontes a serem interrogadas.

A fronteira pedagógica está no método. “A sala de aula é o espaço do estudo da política, de seus mecanismos de disputa, das artimanhas argumentativas de seus agentes e de suas formas de manifestação e pressão. Não é o espaço para escolher o melhor projeto político de uma dada eleição”, afirma Santos.

Diante de um documento, os alunos investigam autoria, data, contexto de circulação, público e finalidade. O procedimento ajuda a diferenciar uma interpretação fundamentada de uma afirmação sem sustentação documental. A política deixa de ser um conjunto de opiniões prontas e passa a ser analisada a partir de evidências, conceitos e argumentos.

As eleições sempre apareceram como objeto de estudo. Em Filosofia, Mathieson aborda os cargos em disputa, as atribuições de deputados e senadores e as diferenças entre os sistemas majoritário e proporcional. Em outra atividade apresenta propostas eleitorais sem revelar os autores, permitindo que a turma examine as ideias antes de associá-las a nomes ou siglas.

Em História, discursos, materiais de campanha, debates jornalísticos e estratégias de comunicação nas redes são tratados como documentos do tempo presente. Os estudantes observam como projetos políticos são apresentados, quais públicos procuram mobilizar e de que maneira acontecimentos históricos são usados para justificar posições atuais.

A análise de fontes orienta também o trabalho com desinformação. Os alunos são estimulados a desconfiar de frases sensacionalistas e generalizações sem dados, identificar a origem das mensagens e consultar mais de uma fonte. As deepfakes ampliam o problema, mas preservam perguntas centrais: quem produziu aquele conteúdo, para quem, em qual contexto e com qual intenção?

Para Santos, a desinformação é uma produção humana: tem autoria, surge em determinado contexto, participa de uma disputa política e busca convencer alguém. Ao estudar a construção do herói Tiradentes pela República recém-proclamada, os estudantes observam como narrativas históricas podem ser elaboradas para cumprir finalidades políticas. Em 1890, a criação do feriado de 21 de abril e a valorização do inconfidente ajudaram a dar à República uma figura capaz de transformar simbolicamente o súdito do imperador em cidadão republicano.

Outra atividade parte do artigo “Ciência explica por que, no voto, emoção pesa mais que razão”, de Hélio Schwartsman, publicado pela Folha de S.Paulo em 2010. A turma identifica sentimentos mobilizados por campanhas e visões de mundo oferecidas ao eleitor. O exercício leva os jovens a reconhecer valores e reações que também interferem em suas próprias escolhas.

 “Queremos que os alunos caminhem para uma região de menos certeza e mais qualidade argumentativa”, diz Mathieson.