Educação?

Início do ano, também das atividades escolares. Nesse contexto precisamos refletir sobre a determinação do governo do Estado de São Paulo de iniciar o ano letivo com 100 escolas cívico-militares em funcionamento.

É verdade que temos muitos problemas em relação à educação no Estado e no país. Porém, essa visão coloca o foco para resolvê-los na questão disciplinar.

Segundo os defensores das escolas cívico-militares, a tarefa da educação é atribuída a professores e profissionais da educação e a disciplina é atribuída a policiais militares da reserva. Fazer essa divisão revela uma compreensão destorcida do que seja educação. A escola, que deve ter como missão a formação de sujeitos conscientes e autônomos, torna-se local de adestramento das crianças e jovens para seguirem a ordem estabelecida.

É verdade que em uma sociedade em que, mesmo no seio familiar a disciplina é vista como grande dificuldade, esse modelo é tomado como solução por muitas famílias.

Porém são vários os problemas relatados, inclusive em documento da ONU sobre as escolas cívico-militares no Brasil. Entre eles a perseguição a alunos e professores que não se adaptam e sofrem pressão insuportável, acabando por se evadir – o que pode ser considerado expulsão; a rejeição de conteúdos referentes aos direitos humanos; a discriminação por classe social, raça, gênero etc.

Além disso tem que se levar em conta gastos orçamentários maiores com essas escolas do que com as demais e o fato que policiais aposentados, que não tem formação para atividades educacionais, terem rendimentos mensais maiores que os profissionais de educação.

Isso faz lembrar a expressão de Darci Ribeiro: “O fracasso da educação no Brasil não é uma fatalidade, é um projeto”. Comentário da internet: “a frase sugere que a precariedade educacional não é um acaso, mas resultado de decisões políticas e escolhas históricas que favorecem a desvalorização do ensino, a desinformação e a manutenção de uma estrutura de poder, formando cidadãos menos críticos e mais suscetíveis ao controle, perpetuando ciclos de desigualdade social, com escolas sucateadas e professores desassistidos”. Ou seja, faz parte da manutenção da estrutura social perversa que perpetua no Brasil a divisão entre as classes proprietárias e os milhões de despossuídos.

Escolas cívico-militares são respostas simples a problemas complexos e visão ideológica da sociedade. Caso o governo estivesse preocupado com a educação, deveria focar nos problemas apontados e não somente na disciplina.

Luiz Eduardo Prates
Professor
luizprts@hotmail.com