São Caetano fecha dezembro com saldo negativo de 1.164 empregos formais

O professor Bruno Castro, da ETEC Jorge Street, alerta que a retomada sólida exige atração de investimentos produtivos de alto valor agregado e geração de emprego qualificado

O mercado de trabalho formal em São Caetano do Sul encerrou o mês de dezembro de 2025 com um saldo de -1.164 vagas com carteira assinada, resultado de 4.015 admissões e 5.179 desligamentos. Na comparação interanual, o desempenho de dezembro de 2025 foi superior ao de dezembro de 2024, que registrou um saldo de -1.469 postos, o que representa uma diferença absoluta de 305 vagas.

O setor de Serviços registrou 2.952 admissões e 3.417 desligamentos em dezembro. O tempo médio de emprego dos desligados foi de 15 meses, resultando em um saldo mensal de -465 postos. O setor detém um estoque de 75.446 vínculos, representando 62,77% do total de empregos formais, com uma variação relativa de -0,61% no mês. O saldo negativo concentrou-se no público feminino (-291) e em profissionais com ensino médio completo (-218) e superior completo (-175), na faixa de 30 a 39 anos (-150).

“O que os dados de Serviços revelam é um preocupante desalinhamento entre a oferta de trabalho qualificado e a capacidade de retenção do mercado local. Perder profissionais com ensino superior em sua fase de maior produtividade — a faixa dos 30 anos — sinaliza uma ineficiência na alocação de capital humano. A alta rotatividade é o inimigo silencioso da produtividade; ela impede que o aprendizado se transforme em ganho sistêmico. Sem um ambiente que favoreça a estabilidade dos vínculos mais qualificados, o setor de serviços permanece vulnerável a ajustes cíclicos, operando abaixo do seu potencial de valor agregado”, comenta o professor Bruno Castro.

No Comércio, ocorreram 668 admissões e 714 desligamentos. Com tempo médio de permanência de 17,5 meses, o setor apresentou saldo negativo de -46 vagas. O estoque mensal totalizou 17.535 postos, equivalente a 14,59% do total de empregos formais, com variação relativa de -0,26% no mês. O saldo negativo incidiu sobre homens (-37) e profissionais com ensino médio completo (-45), principalmente na faixa de 30 a 39 anos (-45). Houve redução de postos em cargos de gestão, com o desligamento de gerentes (-16).

“No Comércio, o desligamento de gerentes é o sintoma clássico do freio de mão puxado na demanda interna. O consumo das famílias está sendo estrangulado pelo custo do crédito e a dívida bancária, enquanto o lojista local, sem horizonte de expansão devido ao alto custo do capital de giro e à concorrência dos grandes marketplaces, corta na gestão para tentar equilibrar o caixa”, comenta Castro.

A Indústria registrou 140 admissões e 371 desligamentos. O tempo médio de emprego dos desligados foi de 28,7 meses, o indicador mais elevado do município. O saldo mensal foi de -231 postos, com estoque de 14.001 vínculos (11,65% do total) e variação relativa de -1,62% no mês. O saldo negativo foi predominantemente masculino (-179), em profissionais com ensino médio completo (-167) e na faixa de 18 a 24 anos (-109). As ocupações afetadas incluíram ajustadores mecânicos polivalentes (-73) e alimentadores de linha de produção (-27).

“A Indústria apresenta o dado mais crítico sob a ótica da estabilidade: a perda de profissionais com quase 30 meses de casa. Trata-se da destruição de conhecimento técnico acumulado que não se repõe no curto prazo. O impacto na faixa de 18 a 24 anos é ainda mais emblemático, pois bloqueia a renovação do quadro produtivo. Sem incentivos para o investimento de longo prazo e com a barreira de juros restritivos, a indústria local sofre um processo de encolhimento que desvaloriza o esforço de especialização técnica no município”, comenta o professor.

A Construção Civil apresentou 255 admissões e 677 desligamentos, com tempo médio de retenção de 10,1 meses. O saldo de dezembro foi de -422 postos. O estoque totalizou 13.175 postos (10,96% do total), com a variação relativa negativa mais acentuada do período: -3,10%. O saldo negativo atingiu homens (-395) e trabalhadores com ensino médio completo (-313), nas faixas de 30 a 39 anos (-150) e 40 a 49 anos (-95). As ocupações com maior saldo negativo foram caldeireiros e serralheiros (-102), montadores de estruturas (-60) e ajudantes de obras (-32).

“A Construção Civil é o setor que mais nitidamente reflete a volatilidade do ciclo econômico atual. Um tempo de retenção de apenas 10 meses expõe a fragilidade estrutural do financiamento e do investimento real. É um desperdício de energia produtiva que só será revertido quando houver previsibilidade macroeconômica e uma redução sustentável do risco país, permitindo que os projetos de infraestrutura voltem a ter perenidade”, comenta Castro.

No acumulado de 2025 (janeiro a dezembro), o município registrou 67.769 admissões e 64.890 desligamentos, com saldo positivo de 2.879 novos empregos formais e um estoque de 120.189 postos.

“Ao analisar o encerramento deste ciclo, observa-se um cenário de preocupação quanto à sustentabilidade do modelo econômico. Embora os índices de confiança empresarial para o início do próximo exercício indiquem otimismo, a conjuntura atual apresenta uma economia restringida por uma política monetária restritiva, que mantém o custo do capital em patamares elevados. A taxa de juros limita o investimento industrial e amplia a inadimplência das famílias, que supera a média regional e comprime o consumo. O comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida bancária impõe uma restrição orçamentária que prioriza encargos financeiros em detrimento do consumo básico. A retomada sólida depende de uma alteração estrutural na política de desenvolvimento econômico que se traduza em atração de investimentos produtivos de alto valor agregado, na geração de empregos qualificados e de longo prazo. O crescimento do estoque total, se composto por vínculos de curta duração em setores de baixa produtividade, representa apenas uma gestão da estagnação sob indicadores estatísticos positivos”, concluiu o professor Bruno Castro.