Escola do ABC tem visão estratégica sobre adaptação escolar

Adaptação escolar deixa de ser etapa inicial e passa a orientar o cotidiano da escola

A adaptação escolar deixou de ser compreendida apenas como um momento inicial de acolhida para ser reconhecida como um processo complexo, que envolve a construção de vínculos, a organização de rotinas emocionais e sociais e a resposta das crianças às exigências de um novo ambiente educativo. Uma revisão sistemática publicada na revista internacional Education Sciences, do grupo MDPI, aponta que a transição entre etapas escolares e a entrada em novos contextos educativos se estendem para além dos primeiros dias de aula e dependem do desenvolvimento do sentimento de pertencimento e bem-estar da criança. O estudo destaca que esse processo envolve a atuação conjunta de professores, famílias e estudantes e pode influenciar de forma duradoura o engajamento escolar, as relações sociais e a saúde emocional ao longo da trajetória educacional.

Na Escola Villare, em São Caetano do Sul, a adaptação na Educação Infantil é acompanhada de forma contínua pela equipe pedagógica, que observa sinais concretos de segurança, autonomia e pertencimento desde os primeiros contatos da criança com a escola. Para Cilene Iatalese, coordenadora pedagógica da Educação Infantil, os indícios de que a criança começa a se sentir parte do grupo aparecem em gestos cotidianos. A criança passa a chegar com mais confiança, aceita participar das brincadeiras e demonstra abertura para a presença da professora e dos colegas.

O acompanhamento do bem-estar emocional ocorre a partir da observação diária das reações das crianças. O choro, entendido como forma de comunicação, tende a se concentrar no momento da despedida da família e se torna mais pontual conforme os vínculos se fortalecem. Segundo a coordenadora, esse movimento é acompanhado por mudanças sutis, mas significativas, na forma como a criança se expressa. Com o avanço da adaptação, ela passa a construir referências afetivas no ambiente escolar e a demonstrar interesse pelas relações estabelecidas no grupo, inclusive fora da escola, ao relatar de maneira simples como foi o seu dia e ao mencionar nomes de colegas.

A comunicação com as famílias é parte estruturante desse processo. O contato frequente permite alinhar expectativas, compartilhar observações e ajustar o ritmo da adaptação de acordo com as necessidades de cada criança. Para Cilene Iatalese, reconhecer que cada criança reage de forma singular é essencial para que a adaptação aconteça com cuidado e coerência, sem imposições de tempo ou comparação entre percursos.

Nos últimos anos, a equipe pedagógica tem identificado mudanças no perfil das crianças que impactam diretamente esse período. Menor vivência de socialização anterior, rotinas pouco estruturadas e dificuldades em lidar com regras coletivas aparecem como desafios recorrentes. Há também situações em que famílias transferem para a escola responsabilidades que fazem parte do cotidiano familiar, o que pode tornar o processo de adaptação mais complexo.

Diante desse cenário, a escola organiza tempos, espaços e propostas pedagógicas que favorecem a construção gradual da vida coletiva. Ambientes pensados para experiências sensoriais e relações de cuidado ajudam a criança a reconhecer a escola como um espaço de pertencimento. A adaptação, nesse sentido, deixa de ser um evento pontual e se afirma como um percurso que exige atenção contínua, presença adulta e intencionalidade pedagógica, acompanhando a criança ao longo de sua entrada na cultura escolar.