A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Diadema inicia a implantação do primeiro Protocolo de AVC (Acidente Vascular Cerebral) no Hospital Municipal (HMD). Embora o atendimento já ocorra na rede municipal, o objetivo do protocolo é capacitar equipes, definir modelos de atendimento, além de monitorar, acompanhar indicadores e aprimorar constantemente fluxos e rotinas de cuidado.
As ações tiveram início em outubro com adaptação de protocolos modelos para a realidade do município. Após validação do documento pela SMS, foi realizada capacitação online para profissionais da área da saúde. Em fevereiro, nos dias 25 e 26, a equipe assistencial de recepção, farmácia, limpeza, fonoaudiologia, fisioterapia, medicina, enfermagem e gestores do HMD foi treinada sobre reconhecimento precoce do paciente, fluxo de atendimento, tratamento e complicações.
As próximas etapas vão envolver ajustes na estrutura do Pronto Socorro e SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), aprofundamento da capacitação por setores, coleta de dados e treinamento em escolas. A previsão é de que toda a implementação do protocolo esteja concluída até o final deste ano.
“Com o protocolo gerenciado será possível identificar oportunidades reais de melhoria. A gestão por indicadores permite reduzir tempos críticos, além de qualificar a assistência e otimizar recursos”, afirma a médica e coordenadora clínica do HMD, Danielle Afonso.
AVC e tempo de cuidado
O acidente vascular cerebral, também conhecido como derrame, ocorre quando vasos sanguíneos no cérebro entopem (isquêmico) ou se rompem (hemorrágico). Nos dois casos, o cérebro fica sem oxigênio, podendo causar paralisia e dificuldades de fala e visão.
Embora tenham duas características de AVC e, consequentemente, dois tipos de conduta, o tempo é fator primordial para atender a emergência médica. “Quando falamos de doenças tempo-dependentes, estamos nos referindo a condições em que cada minuto influencia diretamente a sobrevida e a qualidade de vida do paciente. Um dos principais exemplos é o AVC, especialmente o tipo isquêmico”, explica Danielle.
De acordo com um estudo de 2019, publicado na Associação Americana do Coração/Associação Americana de AVC, em um AVC isquêmico há perda de 2,03 milhões de neurônios por minuto. “O tempo não é apenas um fator operacional e sim determinante para o desfecho clínico. Quanto mais rápido o atendimento, maior a chance de reduzir sequelas, preservar funções neurológicas e salvar vidas”, complementa a médica.
No Brasil, 106.501 pessoas morreram por AVC, em 2024. Além disso, aproximadamente 70% das pessoas com AVC não retornam ao trabalho devido às sequelas e 50% ficam dependentes de outras pessoas no dia a dia, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC).
Em Diadema, os serviços públicos (Hospital Municipal, Unidade de Pronto Atendimento Centro e Hospital Estadual Diadema) registraram 310 internações por AVC, com 53 óbitos. Já no ano passado (2025), dados parciais demonstram que esse número chegou a 316 internações, com 69 óbitos, de acordo com dados do Ministério da Saúde – Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS)
Atendimento multiprofissional
O atendimento do paciente com AVC começa já na recepção – ou antes quando é socorrido pelo SAMU – passa pela enfermagem, equipe médica, radiologia, farmácia, unidade de terapia intensiva, internação e reabilitação. Quando a equipe está alinhada, treinada e consciente de que está diante de uma emergência tempo-dependente, o cuidado é integrado.
Outro ponto importante é reconhecer os sinais do acidente vascular cerebral e prestar socorro corretamente. Por isso, há previsão de iniciativas educacionais para crianças e comunidade. “Mais do que um protocolo, é uma estratégia de saúde pública, já que um sistema organizado pode significar a diferença entre independência e incapacidade – entre vida e morte de quem passa por essa situação”, finaliza.
Angels
Esse protocolo hospitalar faz parte de um projeto maior: o de preparar toda a cidade para atender adequadamente o AVC, envolvendo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs Centro e Paineiras), Pronto Atendimento (PA Eldorado), equipes de urgência e a própria comunidade.
O conceito está alinhado com a iniciativa Angels, presente em mais de 160 países como modelo de estruturação e qualificação da linha de cuidado em AVC.