Ribeirão Pires: das origens indígenas à estância turística

Da aldeia tupiniquim ao desenvolvimento urbano, a história do município revela mitos, ciclos econômicos e a construção de sua identidade

Origens remetem ao século 16

No século 16, o território de Ribeirão Pires era coberto por uma vasta floresta e integrava a aldeia tupiniquim de Geribatiba. O chefe da aldeia, situada nas proximidades do Rio Pinheiros, era o índio Caiubi, irmão de Tibiriçá.

Com a chegada dos portugueses, a Coroa implantou o sistema de sesmarias, e a área passou a integrar os domínios do português e explorador Brás Cubas, que possuía fazendas em Santos e no atual bairro do Tatuapé.

Ribeirão Pires não despertou interesse imediato dos colonizadores e permaneceu praticamente inabitada, devido ao clima úmido, frio frequente, neblina e solo encharcado. Ainda assim, o território era utilizado como rota de passagem para a Vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, com navegação em canoas pelo Rio Grande até o Rio Pinheiros.

O mito da família Pires

Durante muito tempo, o oficialismo histórico atribuiu o nome de Ribeirão Pires à família Pires, afirmando que o Ribeirão Grande – principal córrego que corta o centro da cidade – seria o “Ribeirão dos Pires”.

A interpretação surgiu na década de 1970, após estudos indicarem que o mestre de campo Antônio Pires de Ávila teria se estabelecido na região em 1716, após exploração de ouro em Mato Grosso. No entanto, seu sítio localizava-se no atual município de Mauá, na divisa com Santo André, às margens do córrego Cassaquera, fora do território de Ribeirão Pires.

A família Pires, que chegou ao Brasil em 1532 com a esquadra de Martim Afonso de Souza, tinha como principal reduto a Vila de São Paulo, especialmente o bairro da Penha. Ainda assim, a associação do nome da cidade ao bandeirante se consolidou como mito histórico, reproduzido ao longo do tempo e até mencionado no hino municipal.

Caguaçú e o Ciclo do Ouro

No final do século 16, com o desaparecimento da aldeia Geribatiba, os portugueses passaram a dominar o planalto vicentino. O território de Ribeirão Pires permaneceu praticamente inabitado durante o século 17, mantendo-se coberto por florestas, só atraindo faisqueiros e garimpeiros a partir do século 18, no ciclo do ouro, devido aos rios e córregos aluvionares que indicavam possível presença do minério.
Conhecida então como Caguaçú (“mata úmida e grande”, em tupi), a área ficou vinculada à Vila de São Paulo após disputa territorial com Mogi das Cruzes.

Em 1677, a Vila de São Paulo nomeou o bandeirante Antônio Corrêa de Lemos como capitão-mor de Caguaçú. Entre suas ações estiveram a abertura de uma Estrada Real, depois chamada Estrada do Pilar, e a formação de um arraial próximo ao Ribeirão Grande para apoiar a exploração de ouro no Taiaçupeba-Mirim. No entanto, o ouro encontrado era escasso, levando ao abandono de Caguaçú.

A ferrovia e o povoamento

Já no século 19, a companhia São Paulo Railway & Co. adquiriu diversas terras para a implantação da ferrovia e ouve a necessidade de construir pontes sobre o Ribeirão Pires e o Ribeirão Grande. O primeiro nos bairros Jd. do Mirante, Vila Suely e Bocaina; o segundo, na Rua Capitão José Gallo.

O nome “Ribeirão Pires” ganhou destaque em 1885, com a construção da primeira parada ferroviária, chamada Estação do Ribeirão Pires.

Estação pronta começou a receber moradores. Em fevereiro de 1887 foi fundado o Núcleo Colonial de Ribeirão Pires e, em 1888, chegaram os primeiros imigrantes italianos.

O crescimento da vila levou à construção de um novo prédio da estação, inaugurado em 1º de janeiro de 1900. Entre o final do século XIX e a década de 1930, o povoamento se intensificou com a chegada de alemães, italianos, sírios e japoneses.

A diversidade cultural impulsionou a primeira urbanização, marcada pelo surgimento de escola, correio, ruas, igreja, cartório e hotel, além do fortalecimento do comércio ligado à produção agrícola, pecuária e mineral.

Emancipação

A emancipação do município está ligada às mudanças territoriais da região hoje conhecida como Grande ABC, então parte do município de São Bernardo.

Em 1907, o distrito perdeu o território do Alto da Serra, elevado a Distrito de Paz com o nome de Paranapiacaba, juntamente com as estações de Rio Grande e Campo Grande.

Em 1934, Ribeirão Pires também perdeu a Estação do Pilar. Quatro anos depois, o município de São Bernardo passou a se chamar Santo André, enquanto era criado o município de São Bernardo do Campo. Em 1939, Ribeirão Pires tornou-se distrito de Santo André.

Na década de 1940, surgiu a Sociedade Amigos de Ribeirão Pires (SARP), que liderou o movimento pela autonomia municipal. A mobilização resultou, em 30 de abril de 1953, na entrega do pedido de emancipação à Assembleia Legislativa.

O processo foi concluído em 31 de dezembro de 1953, quando Ribeirão Pires, com cerca de 15 mil habitantes, tornou-se município, daí surgindo importantes equipamentos públicos.

No mesmo ano, a cidade foi elevada à categoria de comarca, instalada efetivamente no ano de 1967.

Estância Turística

A conquista do título de Estância Turística, em 1998, foi resultado de um processo iniciado em 1959. Ao longo de quase quatro décadas, o município apresentou diversas propostas e investiu em melhorias de infraestrutura para fortalecer sua vocação turística.

Em 1986, Ribeirão Pires obteve o título de Município de Interesse Turístico (MIT), etapa importante para a futura classificação. Após oito tentativas, o reconhecimento como Estância Turística foi oficializado em dezembro de 1998 pela Lei Estadual nº 10.130, sancionada pelo governador Mário Covas, com base em projeto do deputado estadual Luiz Carlos da Silva.

Mais recentemente, com base na Lei Complementar nº 1.261/2015, a Prefeitura iniciou em 2017 a elaboração do Plano Diretor de Turismo, com supervisão do SENAC. O documento, previsto na legislação estadual, estabelece diretrizes para o planejamento e o desenvolvimento do turismo na cidade.

Referências

DUARTE, Marcílio. Antônio Pires de Ávila: o militar. Revista Aqui, Ribeirão Pires, ed. 69, jun. 2017.
DUARTE, Marcílio. Uma cidade na serra: história e mito na evolução social de Ribeirão Pires. Santo André (SP): EdUFABC, 2022.
SANTOS, Wanderley. História de Ribeirão Pires. São Bernardo do Campo (SP): EdUFABC, 2017.