Estamos diante de uma nova epidemia. Nos tempos atuais não se sabe se o que está em evidência sempre ocorreu e agora aparece devido à quantidade e rapidez das informações ou se realmente são eventos novos acontecendo simultaneamente. O fato é que, seja por um ou por outro desses motivos, o número feminicídios assusta o país.
Trata-se de um crime hediondo, que a sociedade não pode aceitar como normal. Dados preliminares do Ministério da Justiça e Segurança Pública apontam que o número de feminicídios em 2025 ficou entre 1.470 e 1.568. Uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. No mesmo ano, somadas as tentativas ao número de feminicídios consumados, chega-se ao total de 6.904 casos. Desde que a lei foi sancionada em 2015, cerca de 15.000 mulheres foram mortas. O crime que cometeram para receber essa sentença? Ser mulher.
Entre causas prováveis, especialistas apontam o ressentimento de homens por perder supostos “direitos da masculinidade”, como o domínio sobre a mulher. Homens que se sentem desrespeitados, maculados, traídos, humilhados ou rejeitados etc. Falsos conceitos de virilidade e sexualidade frágil. Toda uma cultura milenar que cristalizou o desprezo, a humilhação, o sentimento de superioridade e posse sobre a mulher.
Somam-se a isso as comunidades de supremacia masculina e as redes de ódio e misoginia nos ambientes digitais. Também a associação entre machismo e fascismo que tem como exemplo a liberação de armas, numa clara apologia da violência, que verificamos no governo do anterior presidente da república.
Um dado chama a atenção: o cruzamento entre o número de feminicídios e o perfil partidário dos governos dos estados aponta que nove entre os dez estados com mais casos de feminicídio em 2025, eram governados por partidos de direita. Pode não haver uma relação direta, entretanto esse dado pode indicar diferenças entre prioridades às políticas públicas para a proteção às mulheres. Um exemplo é o estado de São Paulo. O programa de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher teve dotação de R$ 8,7 milhões no ano, mas execução de apenas R$ 2.6 milhões. 70% não foram usados. Números que precisam ser levados em conta em nossas escolhas políticas.
Precisamos tratar o feminicídio como questão de segurança pública e regulação das redes. Precisamos reverter a cultura machista e patriarcal. Precisamos redes de acolhimento e atendimento à violência contra a mulher. Precisamos vencer as desigualdades estruturais de raça, classe e gênero que favorecem o feminicídio.
Professor Luiz Eduardo Prates
luizprts@hotmail.com