Recebida carinhosamente como “eterna prefeita de São Paulo”, a Deputada Federal Luiza Erundina participou do evento organizado pela Frente de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher no Consórcio Municipal do Grande ABC na última sexta-feira (27).
O evento foi marcado pela presença de Promotoras Legais Populares (PLPs) da região, representantes de movimentos sociais e servidores das 7 cidades do ABCDMRR. A patrulha Maria da Penha, programa da GCM de Santo André, também esteve presente.
Na oportunidade, o Secretário-Geral do Consórcio Intermunicipal, Aroaldo Silva, anunciou o desenvolvimento de um plano regional de combate ao feminicídio, e desafiou os prefeitos das 7 cidades a se posicionarem publicamente contra o feminicídio e a violência contra a mulher na região.
A tarde contou com diversas falas de mulheres que trabalham diretamente com o enfrentamento à violência de gênero nos territórios.
“Eu sou de Diadema, moro na rua da Delegacia da Mulher e quero dizer que mulher que for ser agredida em Diadema precisa ser agredida de 9h às 17h, porque esse é o horário de funcionamento da DDM”, denuncia Priscila Schoof, comunicadora, ativista e Diretora da Casa Neon Cunha.
“Nós lutamos pelas mulheres, e essa luta precisa ser por todas as mulheres. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo e a maior parte dessas pessoas são mulheres trans e travestis. Nossa luta também precisa ser contra o transfeminicídio”, complementa.
O evento foi marcado por depoimentos emocionantes e a recorrente provocação de trazer essa discussão para a base da educação, ensinando meninos e meninas sobre a violência de gênero para combater essa doença que assola a região do Grande ABC e todo o território nacional.
Diversas trabalhadoras e ativistas presentes denunciaram a ineficiência dos equipamentos de combate à violência contra a mulher. Não há atendimento 24h, faltam funcionários, não há capacitação ou treinamento, não há proteção dentro das delegacias para as vítimas, que muitas vezes dividem o mesmo espaço com o agressor no momento da denúncia.
“A morte da Cibelle chocou o ABC porque aconteceu no shopping e atrapalhou o comércio. Ela já tinha medida protetiva contra o agressor. Mas o governo do estado de São Paulo segue cortando a verba direcionada ao combate à violência contra as mulheres. Enquanto a média de feminicídio no Brasil é 1 em cada 10, no estado de São Paulo a incidência é de 1 em cada 5. Algo de muito grave acontece nesse estado”, declarou Natália Gil, psicóloga e integrante da Frente Regional de Combate à Violência Contra a Mulher.
A tímida presença dos homens no evento foi sentida e destacada. Apesar de serem 95% dos algozes nos casos de crimes violentos (UNODC), raramente se envolvem nas discussões sobre violência de gênero.
Apesar dos esforços públicos para frear o avanço dos casos de feminicídio, o ABC segue aparecendo nas notícias desse tipo de crime. Na última quinta-feira (26), Stefany Josepha Siqueira Lopes, de 27 anos, foi encontrada sem vida em São Bernardo do Campo. Josenilton Alves de Almeida, namorado da vítima, contou à polícia que Stefany teria tentado contra sua própria vida. Entretanto, a investigação apontou que essa hipótese não se sustenta. Josenilton já tinha passagens criminais por violência doméstica e já havia sido denunciado por agredir Stefany.
“Pra mim, as casas abrigo precisam ser para os agressores. As mulheres precisam se desdobrar para reunir evidências de que o agressor é perigoso. Outras precisaram migrar para outros estados, precisam mudar de nome. Enquanto isso, o agressor circula livremente. Precisamos pensar em intervenções que permitam que as mulheres vitimizadas e seus filhos fiquem livres, e não seus agressores.” Michelle Dias, Encarregada de Cras no município de Santo André.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 91,8% dos casos de violência doméstica tem pelo menos uma testemunha. Caso presencie uma situação de violência contra a mulher, ligar 180 (polícia militar) ou 153 (GCM) pode salvar uma vida.
Por Thayô Amaral