Inegavelmente o capitalismo tomou conta da Copa. Esse monstro devorador que a tudo engole agora se locupleta com a paixão de milhões de torcedores pelo mundo.
Não é novidade. Mas, em relação à Copa do Mundo, nunca foi tão explicito. Exemplos não faltam. O jornalista Jamil Chade atesta que na reunião da FI FA que decidiu aumentar o número de participantes da Copa, de 32 para 48 seleções, foi dito que o aumento poderia comprometer a qualidade, mas caso aprovado, a receita aumentaria em US$ 1 bilhão.
Outro dado, pelo mesmo jornalista, é que a projeção de receita da FIFA para o ciclo entre 2022 e 2026 é de US$ 13 bilhões. Entre 2019 e 2022 foi de US$ 7,6 bilhões. Há 20 anos era de US$ 3,2 bilhões. Aumentos realmente exponenciais que não deixam dúvidas sobre o futebol ter se tornado um dos maiores negócios do mundo.
São esses bilhões que alimentam as engrenagens dos maiores times e tudo o que gira em seus entornos, possibilitando os salários astronômicos. “Ah, são recompensas pela categoria e genialidade de seus jogadores”, pode dizer alguém. Mas há justiça quando a FI FPRO, organização global representativa dos jogadores profissionais de futebol, composta por 70 sindicatos nacionais e representando mais de 70.000 jogadores em todo o mundo, constata que 45% ganham menos de mil dólares enquanto apenas 2% ganham mais de sessenta mil dólares por mês?
Não obstante, o futebol resiste. Aqui não entendido como o negócio em que se tornou, mas pela categoria, inteligência, habilidade, gingas e dribles, defesas monumentais e genialidade de alguns. Também pela dedicação de jogadores que dão a vida por seus times, indo às vezes à exaustão física. E resiste também quando o improvável acontece. Times supostamente muito inferiores conseguindo travar adversários muito melhor qualificados. Temos visto isso em alguns jogos nesta Copa. Quem acompanha certamente lembrará de algum jogo ou jogador que demonstrou isso em campo.
É a isso que somos chamados. Não a condenar o futebol em si. Mas a resistir e buscar superar a sociedade capitalista que faz do futebol um negócio e é baseada na ganância infindável, na acumulação inescrupulosa, na desigualdade social que torna uma pequeníssima parcela detentora de fortunas fabulosas e reparte miséria, sofrimento e dor para a imensa maioria.
Quiçá consigamos driblar esse monstro insaciável do capitalismo e chegar a uma sociedade em que o futebol, os esportes, as artes, a vida em geral, sejam desfrutadas por si mesmos e não pelo potencial de acumulação que representam.

