São Caetano do Sul precisa ter sua verdadeira história contada

Texto de Humberto Domingos Pastore

No 16º Congresso de História e de Estudos Regionais do Grande ABC, realizado no ano passado em São Bernardo do Campo, a professora Lia Fernanda da Silva, profissional formadora dos Cursos do NAEI – Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva, proferiu a palestra intitulada “A Formação de Professores e a História Local em São Caetano do Sul: Desafios e Possibilidades. É de sua autoria também o artigo que será publicado no segundo semestre onde aborda a temática das contribuições realizadas pelas migrações dos muitos estados brasileiros e diversas etnias estrangeiras na formação da cidade de São Caetano do Sul, e não apenas a italiana, como erroneamente tem se espalhado.

Portadora deste vasto conhecimento, angariado pelas suas múltiplas pesquisas, professora Lia foi escolhida para nos brindar com esta entrevista que muito valoriza o trabalho proposto para ilustrar as páginas de nosso jornal, por ocasião das festividades da cidade. Fica cada vez mais claro que na data de 28 de julho, São Caetano deveria festejar a fundação do Núcleo Colonial que abrigou as famílias italianas e não a criação do município que na realidade só surgiu com o Movimento de Emancipação e com o plebiscito de 24 de outubro de 1948.

Humberto Pastore: Como e quando teve início sua pesquisa sobre as imigrações, além da italiana?

Lia Fernanda da Silva: Trabalho com essa temática desde a escolha do meu tema do TCC, por ocasião do término do curso de História, no ano de 2008, que se baseou em falar de memória e identidade dos nordestinos em São Caetano do Sul a partir da História Oral. Entendia que estas outras narrativas precisavam fazer parte da historiografia local, antes que houvesse um apagamento geral.

Lembro que me deparei com o fato de que não existia literatura que mostrasse a participação nordestina nesse processo de desenvolvimento de São Caetano do Sul. O pouco que encontrei foram trabalhos do jornalista Ademir Medici. Desta forma sabia que deveria partir do zero e fui entrevistar antigos moradores dos bairros São José e Nova Gerte. Consegui ricos depoimentos do ex-prefeito, hoje falecido, Raimundo da Cunha Leite, mostrando como foi densa a contribuição dos migrantes nordestinos.

Estava claro que era preciso fugir da mesmice que sempre deram foco somente na ação dos imigrantes italianos. Eu sempre partia da visão de que o município não podia ter surgido só com os italianos. Afinal aqui já moravam pessoas que trabalhavam em suas chácaras. Por outro ângulo, também queria estudar as demais ações que agiram na cidade, tanto pelos imigrantes europeus, como da parte da migração oriunda dos demais estados brasileiros.

Humberto Pastore: É preocupante o processo de apagamento contra outros segmentos imigratórios?

Lia Fernanda da Silva: Durante muitos anos a literatura local somente focou – e de forma ufanista – a participação italiana, deixando para segundo plano todas as demais manifestações. Se preferiu deixar como esquecido tudo o que aconteceu antes de 1877. É como não tivesse existido, ainda nos idos de 1500, a chácara do alfaiate espanhol Diogo Sanches, as vendas destas terras passando por vários sobrenomes portugueses, até mesmo a contribuição dos monges beneditinos, cuja Ordem Religiosa tinha vindo de Portugal. E sem lembrar que o censo de 1750 apontou que famílias portuguesas já moravam numa vila, que aliás tinha o nome de São Caetano, e que ficava onde hoje temos a Paróquia Nossa Senhora da Candelária. Um outro foco abandonado diz respeito aos incontáveis escravos que aqui moravam, sejam eles indígenas ou africana. Infelizmente o apagamento não termina ai. Ele tem sequência no pós Núcleo Colonial. Ainda hoje, pouco se fala da população negra no período da colônia e das famílias portuguesas, japonesas, espanholas, entre outras, que aqui vieram morar no início dos anos 1900. Neste quadro podemos incluir, já nos anos 1950 a chegada de nossos irmãos da Bahia, Pernambuco, Piauí, Minas Gerais…

Humberto Pastore: A seu ver como resolver, agora este erro histórico?

Lia Fernanda da Silva: Como formadora tenho realizado encontros, cursos, todos motivadores para que as nossas escolas tratem do tema com a maior abrangência possível. Antes somente os alunos do 3º ano do  Fundamental estudavam a história de nossa cidade, hoje o curso já abrange os demais anos, até o nono. O curso tem como ponto de partida a História Local, a perspectiva teórica é no campo da História Cultural, portanto, estuda-se as narrativas e a formação étnica e cultural da cidade, confrontando fontes históricas com a história oral, documentos históricos e iconografia, no caso fotografias.

O curso valoriza o buscar o passado em sua forma mais ampla, auxilia a encontrar distorções históricas, eliminar o sentido ideológico das narrativas não muito confiáveis. Ao todo o curso tem oito encontros, onde aprendemos a encontrar o sujeito histórico vivenciado e a lutar contra dados plenos de ufanismo e que até fogem da compreensão do fato histórico.

Humberto Pastore: Não seria justo imaginar que os escravos, (indígenas e negros) tenham ficado na região?

Lia Fernanda da Silva: Os Monges Beneditinos por quase trezentos anos administraram a fazenda São Caetano. Depois tiveram que deixar o país por ordem do governo de Portugal. É de se imaginar sim que foram muitos os escravos que aqui permaneceram. A bem da verdade é bom lembrar que esta ordem religiosa eliminou a escravidão, dezessete anos ante da imperial Lei Áurea. Outro fato marcante é que para evitar possíveis rebeliões os monges mantinham em muitos casos o hábito de ceder parte das terras para que os escravos cultivassem o seu alimento em pequenas roças. Tudo isso nos faz crer que sim, eles tenham aqui permanecido. Todavia não temos nenhum documento afirmando este fato, apesar de ser sim, justo pensar. O que se sabe é que quando as famílias chegaram de Mântua e Treviso, encontraram por aqui algumas chácaras e seu chacareiros.

Humberto Pastore: Importantes palavras indígenas como Tijucuçu entram no rol do “esquecimento”?

Lia Fernanda da Silva: Apesar de Tijucuçu ser nome de uma avenida na cidade, na verdade as pessoas são levadas a não associarem com uma palavra que outrora foi muito importante, uma palavra que definia uma localidade. Os indígenas que aqui viviam sabiam que o terreno era um grande lamaçal e por isso deram este nome, mas hoje esta explicação não está na mente da população. Faz parte do apagamento de tudo o que se traduz como antigo, do passado e que portanto não merece, ou não precisa ser recordado ou dito.

Resumindo não se compreende por que ainda hoje encontramos afirmações de que os italianos encontraram tudo em abandono, que não existia nada, e que tudo teria surgido com seu trabalho e sacrifício. Palavras que remetem a lama, a barro não cabem no discurso da modernidade. Ficam no esquecimento por que não se coadunam com a tecnologia e com progresso. Os moradores já não sabem do solo argiloso. O barro ficou lá no passado. E com isso toda a história da cerâmica, da porcelana também cai no esquecimento.

Humberto Pastore: É triste ver que não valorizamos a primeira principal fonte de renda que eram as olarias?

Lia Fernanda da Silva: Sim. Claro. E não é só o barro que não se pode ser visto. O que se vende é o fato de que a modernidade pede que os rios sejam tapados, escondidos. Assim o barro, e as olarias desaparecem. As novas gerações, as pessoas que agora para cá se mudam não tomam conhecimento de nosso passado. Fica parecendo que nunca existiu. Não valorizamos saber que os casarões da avenida Paulista, assim como a sede do Museu no Ipiranga foram erguidos com os tijolos de nossas olarias.

Ainda se ouve de vez em quando que um dia existiu a Matarazzo, a Cerâmica São Caetano, mas esquecemos completamente que antes disso tivemos as Louças Adelina, e as Olarias, como da família Perrella e a dos monges beneditinos, onde era utilizado o conhecimento indígena e a mão de obra dos negros de Angola. Sem dúvida, esse “apagamento” de nossa história é mais do que triste, chega a ser cruel.

Humberto Pastore: Fale do prejuízo da narrativa ufanista italiana em detrimento dos demais grupos étnicos?

Lia Fernanda da Silva: Felizmente temos hoje vários historiadores, como Cristina Toledo de Carvalho, e o Coletivo Mapaxilográfico, que busca pesquisar diferentes narrativas de São Caetano do Sul, e assim se debruçam sobre a história e trazem a tona a verdade que ficou abandonada por dezenas de anos. Sem estes novos pesquisadores continuaríamos com uma falsa ideia de como foram os dias e os anos dos italianos que aqui vieram morar, e deixamos de prestar atenção nos valores históricos, culturais, como os costumes dos demais imigrantes e migrantes, cujas histórias acabam desaparecendo com esse silenciamento.