lá fora fazia um dia de sol de encher os olhos, desses que o interior capricha, e eu estava dentro de casa de casaco. casaco de verdade, com zíper e capuz. os quatro cachorros, esparramados no quintal torrando ao sol, me olhavam pela porta de vidro com uma expressão que eu conheço bem: não era pena, era julgamento. quatro juízes deitados de barriga pra cima, avaliando o dono friorento que trata vinte e dois graus como frente fria polar. eu sustentei o olhar, ajeitei o capuz e fui fazer um chá, porque dignidade a gente mantém como pode.
ser friorento crônico é uma carreira que exige infraestrutura. eu tenho uma coleção de mantas com hierarquia definida: a manta oficial do sofá, a manta reserva do braço da poltrona, e a manta de emergência, que fica dobrada num cesto pra visita achar que é decoração. tenho meia pra dentro de casa em pleno janeiro. tenho a habilidade de detectar corrente de ar que nenhum instrumento meteorológico registra. o meu corpo funciona numa escala térmica particular em que o resto do mundo vive sempre uns dez graus acima de mim, e ninguém acredita, e eu já cansei de explicar.
o capítulo mais delicado é a negociação térmica do casamento. o john é uma fornalha humana: dorme de janela aberta, reclama de calor em julho, considera edredom um item decorativo. eu, do meu lado da cama, monto acampamento. a gente já assinou tratados sobre a janela do quarto, cláusulas sobre o ventilador, acordos de inverno com revisão semestral. e no meio dessa diplomacia existe a lareira, que é a minha religião pessoal. acender a lareira no fim da tarde tem liturgia: a lenha empilhada de um jeito específico, o fósforo, a paciência. o john diz que eu fico olhando pro fogo como quem reza. ele não está errado.
mas outro dia, sentado ali na frente do fogo, me ocorreu que tem gente que sente frio de outra natureza. frio da vida. gente que anda agasalhada por fora e congelando por dentro, procurando calor onde encontra: numa conversa, numa rotina, numa fé, numa mesa de bar, num abraço que dure um pouco mais que o protocolo. o friorento da pele todo mundo identifica pelo casaco. o friorento da alma disfarça melhor, e às vezes é a pessoa mais solar da sala.
não tenho conclusão grandiosa, até porque estou escrevendo isto de manta e o meu chá está esfriando, o que configura emergência doméstica. só queria deixar registrado: se você também é friorento, da pele ou da vida, aqui em casa tem lugar perto da lareira. eu não empresto a manta oficial, isso não, tenho limites. mas a reserva é sua, e o fogo dá pra dividir. calor, no fim das contas, é das poucas coisas que aumentam quando a gente reparte.
enrico pierro
@enricopierroofc (Instagram, TikTok, X e Threads) e em seu blog: https://enricopierro.com.br/
escreve semanalmente para mais de 40 jornais e portais pelo brasil. seus textos também estão disponíveis nas redes sociais, onde compartilha reflexões sobre o cotidiano, sentimentos e humanidade.