A empresa quebrou. E o culpado já estava escolhido.
Outro dia, desavisadamente, a conversa de bar mudou de assunto. Saiu o futebol. Entrou a economia. Um amigo, entre um gole e outro, decretou: as empresas no Brasil estão quebrando. Outro nem esperou a espuma baixar: “Também, com esse governo…” (silêncio cúmplice).
Pronto. Em menos tempo do que leva para pedir a saideira, o problema estava diagnosticado, explicado e com o culpado devidamente fichado. Juros, impostos, burocracia. Tudo no mesmo saco. Tudo resolvido.
Confesso: aquilo me incomodou. Não porque eu ache que o governo seja inocente. Não é. Mas porque poucas coisas me tiram mais o sono do que a nossa facilidade em transformar o complexo em simples. E o simples em verdade absoluta.
O professor de Administração que mora em mim levantou a mão. Quis fazer perguntas. Mas, convenhamos, ninguém vai ao boteco para assistir a uma aula. Muito menos para participar de um Roda Viva improvisado entre o torresmo e a cerveja. Fiquei quieto. Mas fiquei pensando.
As empresas brasileiras estão mesmo quebrando? Ou estamos chamando de epidemia o que, muitas vezes, é diagnóstico individual?
Quebrar é diferente de fechar. Fechar é diferente de entrar em crise. Entrar em crise é diferente de pedir recuperação judicial. Na mesa do bar, parecem sinônimos. Não são. Uma empresa pode estar em crise e continuar de pé. Pode fechar uma loja e seguir viva. E pode, simplesmente, deixar de ter lugar no mercado.
E aqui tem um detalhe curioso. A empresa que fecha vira manchete. A que abre, não. A que se reinventa em silêncio, menos ainda. O fracasso tem assessoria de imprensa. A rotina de quem continua trabalhando, não.
E esse é o ponto. Empresa não vive só de conjuntura. Vive de decisão.
Em sala de aula, costumo repetir uma obviedade que, de tão óbvia, vive sendo esquecida: nenhuma organização é uma ilha. Existe o lado de fora, que o empresário não controla. E existe o lado de dentro, que só ele controla. PESTEL e FOFA estão aí para isso. Ferramentas simples. Talvez por isso tão subestimadas.
Imagine dois comerciantes na mesma rua. Mesmo aluguel, mesma inflação, mesmo cliente cada vez mais exigente. Um conhece suas margens de cor. Planeja as compras. Ajusta o rumo. O outro paga as contas de casa com o caixa da loja, assina parcelas sem fazer conta e jura que vender mais resolve tudo.
Mesma rua. Mesma economia. Decisões diferentes.
Então o primeiro vai prosperar e o segundo vai fechar? Não necessariamente. Economia não é receita de bolo. Tem empresa bem gerida que naufraga em mar bravo. Mas dá para ignorar quem estava no leme?
Faturar não é lucrar. Crescer não é ficar mais forte. Ter lucro no papel não é ter dinheiro no caixa. Às vezes a empresa expande quando deveria se arrumar. Às vezes insiste num modelo que o cliente já abandonou faz tempo. Nada disso cabe na manchete. Mas tudo isso cabe no balanço.
Juros importam? Claro. E muito. Crédito caro corrói margem, trava investimento e transforma dívida administrável em bola de neve. Tributos, infraestrutura, renda das famílias, política econômica: tudo pesa. Fingir que não seria ingenuidade. Mercado e Estado não moram em casas separadas.
Mas reconhecer o peso do ambiente não nos dá licença para terceirizar ao governo cada decisão errada tomada dentro da empresa.
E tem uma contradição que eu acho deliciosa. Quando a empresa dá certo, o mérito é do fundador visionário, do gestor brilhante, da coragem de empreender. Quando dá errado, a gestão some da história. Como num passe de mágica. O sucesso tem sobrenome. O fracasso tem endereço: Brasília.
Ora, se a decisão do gestor vale no crescimento, por que deixaria de valer na crise?
Não é sobre culpar o empresário. Nem sobre absolver o governo. É sobre aceitar que as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. A política econômica define o tabuleiro. A gestão decide as jogadas. Uma não anula a outra.
Talvez o grande problema das conversas que começam com a conclusão pronta seja esse: elas matam as boas perguntas antes de nascerem.
Por que algumas empresas se endividam além do que conseguem pagar? Por que algumas demoram tanto a perceber que o mundo mudou? Quanto da crise é juro e quanto é falta de planejamento, de governança, de coragem para mudar? E quando, de fato, nem a melhor gestão do mundo resiste ao ambiente?
Essas perguntas não cabem num gole de cerveja. Dão mais trabalho do que apontar o dedo. Mas chegam mais perto da verdade.
Naquela noite, não abri o debate. Fui encontrar amigos, não ganhar discussão. Mas voltei para casa com uma inquietação.
O Brasil precisa, sim, de juros civilizados, regras estáveis, crédito possível e instituições que deem segurança a quem produz. Mas precisa também de empresas que entendam que administrar não é surfar a onda boa. É planejar. Antecipar. Reconhecer limites. Assumir as próprias escolhas.
Algumas empresas sofrem com o lado de fora. Outras, com o lado de dentro. Outras, com os dois.
Quer saber? O problema nunca foi discordar sobre quem é o culpado. É achar que uma pergunta tão complexa cabe numa resposta só.
Bruno Castro – Professor de Gestão do Centro Paula Souza