Quem nunca teve uma xícara de chá para resolver um desconforto, para acalmar ou para oferecer para uma visita? A sabedoria popular sempre viu nas plantas a solução para muitas coisas, além da função primordial de alimentar. “O contato com a terra cura. Juntos, vamos plantar até conseguirmos colher o que nos fortaleça”, convidou a coordenadora técnica de atividades Maura Akã Mbareté. Ao lado estava a prima, a coordenadora de curadoria e pesquisa Silvia Monica Muiramomi, ambas indígenas da etnia Guaianá-Muiramomi. Elas iniciaram um canto, acompanhado de batidas do pé adornado por um chocalho de sementes, que ditou o ritmo dos participantes que se dirigiram para o local do horta.
O convite de Maura foi feito durante a cerimônia do plantio que deu origem a primeira Horta dos Saberes de Mauá, nas dependências do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) na Vila Falchi. “É uma alegria contagiante! Cresci na roça e mexer na terra é uma coisa que me traz muitas memórias afetivas. A horta trará inúmeras possibilidades para todos que puderam ajudar a cuidar e manter”, disse a secretária de Assistência Social, Fernanda Oliveira. “É uma obrigação voltarmos à ancestralidade porque, embora o progresso traga coisas boas, também traz desafios. E a sabedoria popular pode nos ajudar”, disse o secretário de Segurança Alimentar e Nutricional, Hélio Tomaz Rocha.
A Horta dos Saberes Ancestrais integra a Estratégia Alimenta Cidades do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. A estratégia apoia municípios na produção, no acesso e no consumo de alimentos frescos, nutritivos e saudáveis, especialmente em áreas urbanas vulneráveis, além de promover educação alimentar e ambiental. Nina Brito estava animada, plantando cebolinhas. “Amei!!! Já sou voluntária aqui e ensino artesanato. Todas as quartas-feiras virei aguar e cuidar”, falou Nina.
A horta foi cultivava pelos usuários e usuários do CRAS Falchi. Sua implantação é resultado da parceria das secretarias de Assistência Social e de Segurança Alimentar e Nutricional, com apoio da Secretaria de Serviços Urbano, da Prefeitura de Mauá, com a assessoria do Instituto Comida do Amanhã, parceiro do Ministério, e do Projeto Ubuntu, do Instituto Diversidade, que promove fortalecimento dos vínculos comunitários e a ocupação positiva dos territórios. “Inicialmente, 60 municípios foram selecionados em 2024. Em 2025, foram mais 24. Em 2026, mil municípios aderiram ao Programa de Estratégia Alimenta Cidades. Mauá é uma referência, ja conhecemos várias experiências aqui e vamos levar para outros municípios”, explicou a gerente de projetos do Instituto Comida do Amanhã, Raquel Hunger.
As indígenas participaram também porque outro objetivo é a valorização cultural, com a incorporação de práticas de cultivo baseadas em conhecimentos tradicionais.
O pequeno Enzo Hiroshi estava meio desconfortável e foi lavar as mãozinhas cheias de terra, olhando curioso para a cor diferente nos dedinhos. “Ele disse que estava ansioso para ver os indígenas”, disse a avó Edne Maria da Silva. Ele também plantou suas mudinhas e, quando voltar das outras vezes para acompanhar a avó nas atividades do CRAS, também vai cuidar das suas plantinhas.