O Clã Ruiu

O espetáculo protagonizado pelo clã Bolsonaro nos últimos dias deixa claro que a retórica de união familiar serve apenas como verniz para esconder profundas fraturas e interesses pessoais. A ruidosa briga pública entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro expôs uma dinâmica de poder implacável. Ao vir a público anunciar uma “punhalada premeditada” e revelar que foi humilhada pelo enteado – que teria dito de forma ríspida que ela “não entendia de política” -, Michelle escancarou que a harmonia de portas para dentro ruiu há muito tempo.

O pedido público de desculpas ensaiado por Flávio não reflete fidalguia, mas puro desespero estatístico. Comandando uma pré-candidatura presidencial que amarga expressiva rejeição e míseros 24% de intenção de voto entre as mulheres segundo a pesquisa Quaest, o senador sabe que não pode alienar o eleitorado feminino liderado pela madrasta. Do outro lado, o patriarca da família assiste ao incêndio doméstico de forma ainda mais isolada e vulnerável.

Para agravar o cenário, o ex-presidente acaba de se enfiar em um enrosco legal grotesco por causa de uma pistola Glock 9mm. A arma, registrada em seu nome, foi flagrada sem o certificado exigido em uma blitz no Distrito Federal. Em depoimento oficial à Polícia Civil, Bolsonaro admitiu que mantinha o armamento em sua residência durante a prisão domiciliar, justificando de maneira tacanha que “tinha três mulheres em casa” e “não podia ficar desarmado”.

A conduta acendeu o alerta no STF. O ministro Alexandre de Moraes provocou a Procuradoria-Geral da República a avaliar se o episódio configura falta grave na execução da pena, o que abre uma brecha real para a revogação do benefício humanitário e um eventual retorno à prisão fechada. Embora a defesa tente emplacar a exótica tese de que a arma havia sido sorrateiramente inutilizada pela própria equipe de segurança o estrago jurídico já foi feito.

Se eles não conseguem governar o próprio teto, esconder a ganância pelo palanque ou sequer cumprir as regras elementares de uma prisão domiciliar, será que realmente conseguem comandar um país do tamanho do Brasil?

Vale a reflexão.

A Direção