Miopia

O apito final da Copa do Mundo nos arranca de um torpor coletivo. A ressaca da bola rolando dá lugar às férias escolares do meio do ano, um período em que as famílias buscam o descanso e os jovens se desligam da rotina. No entanto, esse descanso é interrompido por um despertar cívico inevitável. Em outubro, o Brasil define os rumos da Presidência e das gestões estaduais.

Nas quatro linhas americanas, o espetáculo caminha para a decisão do pódio. A França enfrenta a Inglaterra na disputa pelo terceiro lugar, um consolo para gigantes que caíram nas semifinais. O ápice do torneio ferve no domingo, com a grande final entre Espanha e Argentina, o choque de um futebol espanhol impecável contra a mística de uma seleção argentina obstinada. Assistimos a esses duelos com o coração na boca, devorando estatísticas e cobrando precisão milimétrica de técnicos e atletas.

O paradoxo nacional se instala quando mudamos o foco para o tabuleiro político.

Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, o cenário desenha uma polarização antecipada e feroz entre o atual governador, Tarcísio de Freitas, e o ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Paralelamente, a disputa presidencial reacende velhas paixões. Diante desse cenário de extrema relevância institucional, o eleitor paulista – e brasileiro – frequentemente se comporta como um espectador apático, anestesiado pelo recesso e pelas promessas de palanque.

Não podemos escolher nossos representantes governamentais guiados pelo mesmo ânimo passageiro que rege as finais de um mundial. A máquina pública não entra em recesso; ela opera diariamente, ditando o destino da saúde, da segurança e da infraestrutura. Projetos políticos eleitoreiros tentam nos dopar com a mesma facilidade com que comemoramos uma vitória na prorrogação. É preciso encarar a realidade com a clareza de quem sabe que o futuro do estado e do país não se resolve com sorte.
O voto é a ferramenta que nos obriga a sair da arquibancada.

Passado o frenesi de domingo, a rotina escolar logo retorna e o descanso chega ao fim. Diante disso, fica o incômodo: continuaremos dedicando nosso melhor raciocínio crítico apenas aos debates táticos de noventa minutos, enquanto deixamos o futuro da educação, do nosso estado e do país nas mãos de discursos políticos que apostam justamente na nossa distração e conveniência?

A Direção