São Caetano do Sul 149 anos: Muito além de somente macarronada e pizza

Pesquisa e texto de Humberto Domingos Pastore

Esta reportagem nasce da necessidade de, em nome da veracidade, esclarecer que o município de São Caetano do Sul, contou sim com o esforço, suor, dedicação e garra de dezenas de famílias italianas que escolheram sair da Itália e procurar um novo futuro em terras brasileiras, mas também contou com o esforço, suor, dedicação e garra de famílias oriundas de outros países, assim como de migrantes que saíram de diversos estados brasileiros.

Muito antes da vila São Caetano, ou da cidade de São Caetano do Sul, ainda nos idos de 1590, quando tudo era Tijucuçu, por estas terras já morava um espanhol e uma portuguesa, além de uma família indígena. Depois vieram mais. Tivemos em 1750 um povoado com poucas famílias com os sobrenomes portugueses. E sabemos que quando os italianos vieram inaugurar o Núcleo Colonial, ao descerem do trem foram acolhidos pela família portuguesa dos Garcia, que aqui já morava. A seguir enumeramos as muitas nações que participaram de todo o processo.

Os portugueses

Contam os registros que os primeiros portugueses nestas terras, hoje conhecidas por São Caetano do Sul eram os colonizadores e jesuítas no século XVI, seguidos pelos monges beneditinos que fundaram a Fazenda São Caetano em 1631. Contudo, a grande imigração portuguesa aconteceu entre as décadas de 1920 e 1950.

Temos três momentos marcantes vivenciados, e em duas com participação portuguesa. Vejamos: No século XVI e XVII tivemos a ação dos exploradores, tipo João Ramalho e Antônio Rodrigues, considerados primeiros brancos a percorrer o território do que viria ser o ABC que hoje conhecemos. Cabe dizer que a área ocupada por São Caetano começou a se estruturar a partir de 1631, quando a sesmaria conhecida como Tijucuçu foi doada aos monges da Ordem de São Bento (o Beneditinos).

Já no século XIX, tivemos a Imigração Italiana que deu novo rumo em 1877. Um pouco antes o governo imperial comprou a área e a transformou no Núcleo Colonial, que foi povoado majoritariamente por imigrantes italianos (vindos inicialmente de Treviso).

E no século XX, a grande onda de Portugal. Essa imigração se estrutura durante a expansão industrial já nas décadas entre 1920 e 1950. Os portugueses vieram atraídos pelas vagas de trabalho em fábricas locais, como a General Motors. Muitos deles vieram da Argentina, motivados a trabalhar na manutenção dos maquinários.

Os japoneses

São Caetano começa a sua trajetória com a imigração japonesa com a vinda da primeira família, os Toyoda. Os membros fundadores são Senjiro, Shizue e Keigo Toyoda, que aqui chegaram em 1926 para trabalhar no comércio, mais precisamente na antiga fábrica de Louças Adelina. Por aqui fincam suas raízes, e 22 de abril de 1927, nasce Sumie Toyoda, reconhecida como a primeira nissei (termo que define os descendentes de japoneses) nascida na vila São Caetano. Vale frisar que de forma diferente de outras regiões de São Paulo, que receberam grandes levas nipônicas para as lavouras de café, em nossa região se deu pelo trabalho industrial e comercial.

Os espanhóis

A presença espanhola em São Caetano pode ser vista não só nos primeiros tempos da ocupação territorial da região, ainda no século XVI, mas também no período de maior intensidade imigratória verificada nas décadas de 1920 e 1940.

Podemos distinguir dois importantes momentos vivenciados. Primeiro tivemos o chamado Pioneirismo no século XVI, definindo como primeiro registro de habitantes nestas terras de Tijucuçu, mormente onde hoje está o Bairro da Fundação, nos idos de 1597, lembrando-se do casal Diogo Sanches, um alfaiate espanhol, e sua esposa, a portuguesa Isabel de Felix. Eles possuíam uma rústica fazenda com roças e casebres, sendo considerados os primeiros moradores não-indígenas da região

Na segunda fase vamos encontrar a Imigração e a Formação da então, Vila Barcelona, já nas décadas de 1920 e 1940, quando aconteceu uma nova e expressiva chegada dos espanhóis que escolheram São Caetano para viver e trabalhar, mais precisamente a vila que recebeu o nome em nome da homenagem à cidade catalã. Vale destacar que a união da Vila Barcelona, com a Vila Ressaca resultou hoje no atual Bairro Barcelona.

Os alemães

O destaque fica por conta da primeira família alemã em terra de São Caetano. Eram os Junker, que compraram um lote no Núcleo Colonial que o Império tinha estruturado para receber as famílias italianas. A vinda em grande número das famílias alemãs se deu mesmo no início do século XX, uma leva de imigrantes oriundos da Europa Central que na década de 1920, estavam fugindo das consequências da Primeira Guerra Mundial.

Pode-se dizer que essas famílias ajudaram no surgimento e depois, no desenvolvimento do hoje, Bairro Santa Paula, onde inclusive fundaram a Sociedade Teuto-Brasileira no ano de 1929. Importante destacar ainda que em 1877 tivemos uma forte influência teutônica no vizinho Núcleo Colonial de São Bernardo, que abrigava famílias alemãs pioneiras, como os Rathsam e os Hembel.

Os russos

Os registros apontam que a maior parte dos primeiros russos que se estabeleceram em São Caetano chegou entre o final da década de 1940 e a de 1950. Eram refugiados que foram deslocados após a Segunda Guerra Mundial. Muitas dessas famílias eram, na verdade, de origem ucraniana e bielorrussa, uma vez que a região fazia parte do antigo Império Russo.

Estes pioneiros russos tinham um perfil diferente de outras regiões brasileiras, como do Sul, onde os imigrantes não se dedicaram à agricultura. Eles foram rapidamente absorvidos pelo crescente polo industrial do Grande ABC que nascia, preferindo assim, trabalharem nas fábricas.

Quanto ao número de imigrantes russos temos os registros históricos indicando que aproximadamente 72 imigrantes russos se fixaram na cidade nesse período do pós-guerra. Como herança cultural podemos citar que a influência eslava na cidade é forte, especialmente a ucraniana, como comprovam a presença marcante de igrejas ortodoxas.

A migração nordestina

As migrações nordestinas com destino, não mais para a vila de São Caetano, mas agora para a já cidade de São Caetano do Sul passaram a ocorrer de forma bastante intensa entre as décadas de 1950 e 1960. Atraídos pelo forte crescimento industrial do Grande ABC, esses nordestinos chegaram para atuar como mão de obra crucial na construção civil e no parque fabril.

A vinda desses pioneiros foi impulsionada por dificuldades socioeconômicas e secas que eram comuns no Nordeste. Para entender como essas famílias se estabeleceram e ajudaram a moldar o novo perfil da cidade, podem ser destacados os seguintes eixos, como o contexto de chegada. Os deslocamentos ocorreram em um momento de rápida expansão industrial. Muitos chegaram de trem ou ônibus com poucos recursos, mas com o objetivo de construir uma nova vida.

Tivemos também as importantes Redes de Apoio. É que devido às dificuldades iniciais, surgiu em 1950 a Sociedade Beneficente Brasil Unido, uma entidade que prestou assistência fundamental com abrigo, alimentação, qualificação e inserção profissional para esses migrantes recém-chegados. Por fim o que chamamos de Legado e Celebração. Apesar do histórico oficial de São Caetano focar muito na colonização italiana, a presença nordestina foi vital para o desenvolvimento dessa localidade. Hoje, o município celebra essa herança com grandes eventos, como a tradicional Entoada Nordestina.