Pesquisa e texto de Humberto Domingos Pastore
Em 1988, por ocasião da lembrança do Centenário da Abolição, o sociólogo, professor José de Souza Martins escreveu o livro: “A escravidão em São Caetano – 1598-1871”, obra que foi publicada pela Associação Cultural Recreativa e Esportiva Luiz Gama, pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de São Caetano do Sul, e pelo CEDI – Centro Ecumênico de Documentação e Informação.

O livreto tem vinte e oito páginas. Traz a seguinte dedicação: À memória da escrava Joana, de São Caetano, e do seu filho anônimo, liberto, que lhe comprou a liberdade em 1810, por 32 mil réis. Na contra capa a importante informação de que “Em 1862 aconteceu a Manifestação de desobediência dos escravos de São Caetano. Recusam-se a trabalhar na olaria da antiga Fazenda. No ano seguinte, as escravas com mais de cinco filhos são libertadas. E no ano de 1866m são declarados livres todos os filhos de escravos nascidos a partir do dia 3 de maio. Finalmente, a escravidão é extinta em São Caetano a 29 de setembro de 1871, dezessete anos antes da Leia Áurea”.
Nas primeiras páginas do livro, destinado ao título: Apresentação, destacamos o parágrafo onde José de Souza Martins define o objetivo da publicação: “Na Matriz Velha de São Caetano, o granito frio e cinzento recobriu de silêncio o s vestígios do escravo, seu trabalho e suas lutas. Matou a memória do escravo, como, também, num certo sentido, vai recobrindo de silêncio a memória do imigrante italiano que, com sua (entidade) a ‘Irmandade de São Caetano’, (criada) em 1879, organizou a primeira resistência do colono contra a violência do grileiro e do especulador. E foi ali mesmo que, em 1892, nasceu a primeira sociedade de mútuo socorro do lugar, organizada pelos trabalhadores de São Caetano”.
O conteúdo do livro está inserido a partir da página nove. Aqui reproduzimos o seu preambulo que traz significativos registros históricos. Vamos a ele:
“Muitas pessoas ficam surpresas quando se fala que houve escravidão no hoje município industrial de São Caetano do Sul. Pois, houve por mais de 270 anos, do século 16 ao século 19. Sob o piso da atual Matriz Velha, no Bairro da Fundação, ainda devem existir os túmulos dos escravos aqui falecidos. É que a Igreja atual foi construída, em 1883, pelos colonos italianos do Núcleo Colonial de São Caetano, no mesmo local em que existiu, até então a Capela de São Caetano, para isso demolida, que fora construída em 1717-1720 e ampliada e reformada inteiramente, em 1772.
Ao lado da velha igreja rural, de 9,5 metros por 4,4 metros, com sua porta de arco, em estilo romano, torre, coro, púlpito, retábulo e pia batismal, onde eram batizados os escravos do lugar, existiram as senzalas da Fazenda. Elas ficavam num dos lados do que, no século 18, era chamado de Páteo de São Caetano, nome que os colonos italianos conservaram, como mostram os documentos de 1891, até que fosse mudado para Praça Ermelino Matarazzo, em homenagem a um filho do Conde Matarazzo, morto em acidente automobilístico na Itália, em 1920. Portanto, as senzalas dos escravos de São Caetano ficavam nas proximidades da atual Matriz Velha, ao lado da Fábrica Matarazzo, onde também estava a casa-grande da Fazenda, com seu alpendre.
Este livro nos brinda com o noticiário sobre o início da história de São Caetano do Sul, desde os idos de 1596, quando aqui nestas Terras de Tijucussu existia uma rústica chácara que pertencia ao alfaiate espanhol Diogo Sanches e sua esposa Isabel Félix, irmã do bandeirante Jacques Felix, (mais tarde, fundador de Taubaté), considerado vizinho, mas morando onde hoje esta a Vila das Mercês. Ficamos sabendo também da existência dos primeiros escravos desta antiga São Caetano, composta por uma família indígena. Vejam os dados a seguir:
“No inventário após a morte de Diogo Sanches, pela primeira vez, há referência a escravos no Tijucuçu. Era um ‘casal de peças’ , como então se denominava o escravo indígena: Antonio e Maria, com cinco filhos: Joane, Isidoro, Matias, Henrique e Mônica. Todos foram vendidos, menos esta última que, por ser a mais velha, foi mantida na família do tuto, Jacques Félix, para cuidar do filho órfão de Isabel e Diogo, Miguel Sanches, que era muito doente”.
Sobre a escravidão que existiu neste São Caetano do outrora, Professor Martins nos traz a seguinte redação:
“A escravidão nasceu, mesmo, com a formação da Fazenda. Aí na verdade, houve dois tipos de escravos: os administrados e os escravos propriamente ditos. Desde 1631 até meados do século 18, predominavam os administrados. Eram índios escravizados e seus descendentes, conhecidos na época como ‘gente da terra’ ou ‘pardos’. Esses servos chegaram ao patrimônio do Mosteiro, como também a maior parte das terras, por meio de doações de devotos, geralmente em troca de missas depois que morressem. Esses índios administrados tinham uma situação jurídica diferente da do escravo negro, de origem africana. No podiam ser vendidos nem avaliados, pelo menos a partir de 1631, quando houve uma primeira proibição da escravidão indígena”.
Consta que viviam na Fazenda de São Caetano, no ano de 1750 oito escravos negros e quinze denominados por administrados. Isto foi mudando com os anos e em 1825 todos os escravos dos monges beneditinos já eram todos negros pelos recenseadores. Eles eram denominados por dois grupos: os nascidos na África e os crioulos que eram nascidos no Brasil. Professor Martins em um trecho do livro afirma que “O Mosteiro de São Bento raramente comprava escravos e raramente os vendia. A maioria havia nascido em suas fazendas. Nos documentos que encontrei em vários arquivos, correspondentes a um período de cerca de cem anos, localizei apenas três africanos na Fazenda de São Caetano: Manoel, negro mina, em 1730; José Angola, nascido em 1759, que viveu longos anos em São Caetano; e Manoel Angola, nascido em 1758, que viveu em São Caetano até 1805”.
Tendo como fontes, o Departamento do Arquivo do Estado, Maços: “População”, manuscritos; Departamento do Arquivo do Estado, Documentos Avulsos, vol. III, p. 130, os números de escravos da Fazenda de São Caetano, com variações, cresceu ao longo dos anos, conforme mostra esse quadro:
Escravos da Fazenda de São Caetano (1730-1826)
Ano Escravos
1730 17
1750 23
1765 19
1797 39
1798 45
1802 48
1804 44
1805 43
1807 39
1808 49
1809 47
1810 45
1811 45
1813 41
1814 42
1815 39
1816 39
1817 39
1825 56
1826 51
Nestes dois próximos trechos reproduzidos temos uma visão sobre os costumes da época e como esses escravos viviam seu dia a dia. “Na olaria da Fazenda São Caetano o trabalho era feito por escravos e escravas, entre os quais alguns aprendizes de oleiro. O conjunto da vida dos escravos, na cerâmica e fora dela, era supervisionado pelo feitor. A Fazenda era administrada por um padre-fazendeiro”. Em outro momento a informação sobre a alimentação. “O trabalho da cerâmica era completado com o transporte dos produtos para São Paulo, pelo Rio Tamanduateí, em canoas remadas pelos escravos: Uma canoa grande, de 10 metros de comprido, no tempo da cheia, e duas canoas pequenas, no tempo da seca. Trabalho perigoso, pois, ao menos uma vez, a canoa grande naufragou, em 1763, levando ao fundo do rio toda a carga de telha. Esse trabalho era geralmente, feito de manhã, pois os escravos iam almoçar feijão, bananas ou laranjas no Mosteiro, numa época em que o almoço ocorria normalmente às 9 horas.
Extraímos também este trecho para melhor compreensão do convívio entre o escravo indígena e o escravo africano. “O administrado indígena predominou enquanto a atividade foi a da criação de gado vacum. Já o crescimento da escravidão negra está diretamente associado ao desenvolvimento da indústria cerâmica no interior da Fazenda, atividade que durou mais de 130 anos”.
Antes que indague sobre os tratamentos médicos da época, adiantamos contando que “os escravos de São Caetano e da Ordem recebiam grande atenção em caso de doença. Para isso mantinha o Mosteiro uma botica e hospital, em duas dependências. Em São Caetano, havia até mesmo lancetas para sangrar doentes, um tratamento comum, na época, para diversos males. Todo o cuidado, porém, era relativo em face das doenças contagiosas. Como em 1761-1762, quando houve uma epidemia de varíola na Fazenda, que exigiu até o internamento de uma escrava”.
Te convidamos para ler também estas informações constantes no livro: “Um regalo habitual, que se concedia aos escravos de São Caetano, era o fumo-de-corda, além das doses homeopáticas de aguardante-da-terra. Anualmente, os escravos, como os monges, recebiam uma muda de roupa. Os escravos, de tecido de algodão. Também lhes davam cobertores de tempos em tempos”. E existia a reclamação sobre os ganhos financeiros: “Desde o final do século 18, os beneditinos já se queixavam dos baixos preços dos tijolos que fabricavam em São Caetano, devido à concorrência”.
Muito comentado, até hoje, o fato de que a escravidão terminou anos antes do decreto imperial. Vejam este trecho: “Em São Caetano, a escravidão terminou no dia 29 de setembro de 1871, dia em que a Ordem de São Bento, no Brasil, promulgou a libertação geral, sem condições, e irrevogável, de todos os seus escravos, cerca de 4 mil, em todas as suas fazendas. Assim, a escravatura em São Caetano, terminou no dia seguinte ao da Lei do Ventre Livre e 17 anos antes da Lei Áurea”.
Consta que os escravos teriam sido transferidos para o Mosteiro localizado na Bahia. Mas não foram todos, e a prova é que os italianos quando em 1877 vieram de Mântua e Treviso, encontraram alguns dos antigos escravos aqui morando: “O desfecho desta história ainda não é conhecido, afinal, os imigrantes italianos que fundaram o Núcleo Colonial de São Caetano, a 28 de julho de 1877, aqui encontraram, ainda, o casal Dionísio e Maria e o casal Martim Pinheiro e Joaquina, ex-escravos da Fazenda, indício de que, provavelmente, a transferência não se realizou”.