Mais um café, por favor…

Trabalhar quarenta horas semanais pode facilmente se transformar em uma engrenagem repetitiva em nossos gestos, reuniões e pensamentos. Mas uma questão que permeia o mundo não falado é: qual é a verdadeira essência que colocamos naquilo que entregamos ao outro?

Um escritório de arquitetura em São Caetano, por anos, o ambiente foi movimentado por Núbia B., a copeira do local. Ela trabalhava de forma irretocável. Era aguçada, mantinha a lista de compras atualizada, se antecipava de forma notável e preparava a bebida no horário exato. Vez ou outra, opinava sobre os projetos, mas sem ser invasiva, mantendo uma simpatia correta. Porém, quando o dia pesava, balbuciava reclamações até sutis, seu olhar cerrava, mas no dia seguinte estava lá com sua dedicação costumeira. Núbia B. entregava um café impecável.

Com o tempo, Núbia B. se mudou para o litoral; disse que trabalho era tudo igual e que acostumou-se com sombra e água fresca. O escritório mudou com a chegada de Benália N., que assumiu a mesma função. Benália N. era mais reservada e não era tão vaidosa ou chamativa quanto Núbia B. Não era de muitos gestos. Mas cada um deles era exato, como quem sabe que o sagrado mora nos pequenos atos.

Para ela, passar o café não era apenas uma tarefa cumprida, mas um ritual silencioso. Imaginava sinceramente que cada arquiteto, ao dar o primeiro gole, seria agraciado com clareza e paz para desenhar seus projetos, e que seu café era a chave, para o visitante fechar negócios. Falava pouco, mas quando acionada, suas palavras pareciam carregar uma espécie de autenticidade, que a bandeja refletia como um espelho. Certa manhã, ao esbarrar a bandeja ao trombar com um apressado sem querer, quebrou o silêncio com leveza ao olhar para a equipe atônita: “Tá vendo, seu arquiteto? Até o chão quis beber do meu café hoje.” E o clima se dissolveu em harmonia.

Benália N. não buscava holofotes como Núbia B., mas quando não estava, sua falta era uma presença sentida. Da mesa do fundo, alguém perguntava: “ Benália já foi embora? Queria tanto mais um café…”, ao que o colega ao lado respondia surpreso: “Mas você nem gostava tanto de café assim…”

No fundo, a bebida era a mesma. O que mudou foi o invisível.

O que Núbia B. precisava integrar em sua rotina para brilhar por dentro, sem nunca precisar pedir atenção? E o que Benália N. descobriu no silêncio do seu fazer para transformar a caminhada comum em pura magia?

Cristopher Ferraz de Araujo

Cristopher Ferraz de Araujo

Head de Negócios e Parcerias Estratégicas em Fourbrazil tecnologia (fourbrazil.com)