STF: quando a Justiça precisa prestar contas

O Brasil atravessou semanas de forte turbulência no centro do Poder Judiciário. O Supremo Tribunal Federal, instituição encarregada de preservar a Constituição, passou a ser palco de uma disputa entre seus próprios ministros, envolvendo a Polícia Federal, o Banco Master, Daniel Vorcaro e personagens diretamente relacionados à eleição presidencial de 2026.

O caso ganhou proporções preocupantes quando o ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master, determinou o levantamento do sigilo de parte de um relatório da Polícia Federal que mencionava mensagens atribuídas a Vorcaro e relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes. O material foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República.

A partir daí, a crise deixou de ser apenas uma investigação sobre uma instituição financeira e passou a atingir o próprio Supremo. Moraes pediu ao presidente da Corte, Edson Fachin, que fossem apuradas possíveis irregularidades na atuação de Mendonça.

O episódio também colocou sob escrutínio o encontro que Mendonça admitiu ter mantido com Vorcaro, em março de 2025, em São Paulo. A reunião foi intermediada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira. O encontro, isoladamente, não demonstra qualquer irregularidade, mas tornou-se mais um elemento de uma crise que exige explicações públicas e transparentes.

E não é só isso.

As investigações chegaram ao terreno eleitoral. Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, aparece no caso relacionado ao filme Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo informações divulgadas, Flávio teria solicitado a Vorcaro cerca de US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões, para financiar a produção. A Polícia Federal investiga também os repasses efetivamente realizados, estimados em cerca de R$ 61 milhões.

A produtora do filme e possíveis relações com emendas parlamentares também entraram no radar das investigações. Entre os nomes investigados está o deputado Mário Frias.

Tudo isso precisa ser investigado. Mas investigar não significa condenar. Da mesma forma, suspeitas não podem ser transformadas automaticamente em verdades políticas.

É preciso, portanto, separar fatos de narrativas. Até o momento, não há base suficiente para afirmar que as investigações tenham sido deliberadamente conduzidas para atingir o governo Lula ou interferir na eleição. Essa hipótese pode fazer parte do debate político, mas não pode ser apresentada como fato comprovado.

Também é incorreto tratar o presidente Lula como alguém que teria ordenado ao STF o que fazer. O que está documentado é que Lula defendeu a transparência das investigações, enquanto Fachin, como presidente do Supremo, tomou decisões para tentar impedir que o conflito institucional se agravasse.

Fachin suspendeu tanto o afastamento dos dirigentes da Polícia Federal determinado por Mendonça quanto a posterior decisão de Flávio Dino que havia determinado a reintegração dos policiais.

Na nossa avaliação, Lula acertou ao defender que os fatos sejam conhecidos. Fachin também acertou ao tentar restabelecer a ordem institucional.

O Supremo não pode se transformar em campo de batalha entre seus próprios integrantes. A Polícia Federal não pode ser instrumento de disputa política. E investigações que envolvem banqueiros, ministros, parlamentares e candidatos à Presidência precisam obedecer a uma regra elementar: a mesma Justiça para todos.

O Brasil não precisa de versões convenientes. Precisa de fatos.

Que se investigue Vorcaro. Que se investiguem Moraes e Mendonça, dentro das regras institucionais. Que se investiguem Flávio Bolsonaro, Mário Frias e todos os demais envolvidos quando houver indícios. E, comprovadas irregularidades, que haja responsabilização – independentemente do partido ou da posição ocupada.

A democracia não se fortalece quando instituições escondem seus problemas. Fortalece-se quando têm coragem de expô-los e corrigi-los.

Transparência não é favor. É obrigação. E, neste momento, é também a melhor defesa das próprias instituições brasileiras.

A direção