Realiza-se neste final de semana, em São Bernardo do Campo, o 13° Encontro Nacional do Movimento Fé e Política, congregando pessoas de várias tradições religiosas. Que relação pode haver entre religião e política?
No senso comum brasileiro “religião não se discute”, a opção religiosa de cada pessoa é de foro íntimo. Muitas pessoas também pensam “política e religião não se misturam”.
Apesar disso, a religião sempre esteve imbricada com a política. Pelo menos no sentido de a religião dominante ser a das classes dominantes.
Dois fatores complexificam esse quadro. É necessário distinguir entre o arcabouço das crenças e valores de uma visão religiosa e a sua institucionalização. Outro fator é que a abrangência de um campo religioso, mesmo sendo a expressão das classes dominantes, se estende às classes dominadas.
Em certo momento no Brasil, dentro da religião dominante, uma parcela, com potencial de se tornar majoritária, passa a valorizar mais os princípios religiosos e sua visão ética do que a institucionalidade. Isso ocorre especialmente em decorrência da tomada de consciência de parte da população, principalmente das classes populares, de sua situação de submissão à dominação e exploração. E que ela é sustentada em parte pelos valores religiosos tais quais a instituição determina.
Esse quadro levanta um alerta no campo propriamente institucional da religião dominante, a partir de sua matriz internacional, que aciona mecanismos para barrar o avanço da parcela militante que buscava, a partir de sua visão de fé, interferir para a modificação da realidade no sentido de pelo menos atenuar a situação de dominação e exploração.
Por outro lado, no campo político, sentindo a ameaça de perda de sua hegemonia, o poder imperial dominante no Brasil e na América Latina toma a resolução de interferir nessa situação, visando manter seu poderio. E o faz por uma derivação da religião dominante, não subordinada à institucionalidade internacional da mesma. É o surgimento, ou afirmação, do segmento hoje chamado evangélico.
Todo esse quadro propicia um rearranjo de aproximações entre religiosos de diversos credos, que se compreendem parte dos dominados e explorados e pensa os valores e princípios fundamentais de suas visões de fé como resistência à situação vigente de dominação.
É a afirmação que religião se discute, sim. E que opção religiosa, a partir de crenças e valores, e posição política podem, talvez devam, corresponder. É o sentido desse Movimento.
Professor Luiz Eduardo Prates
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