Um dia desses, enquanto passava minhas compras em um terminal de autoatendimento na Coop de Santo André, ouvi um desabafo que resume o espírito do nosso tempo. Um senhor ao meu lado direito, na casa dos sessenta e tantos anos, passando também suas compras na tela, disse: “É… os robôs vão roubar todos os trabalhos da gente”. Antes que eu pudesse responder, uma mulher no caixa ao meu lado esquerdo completou: “A I.A. vai fazer tudo! No meu serviço mesmo já tem I.A. na cabine; quem fazia o controle foi dispensado”.
Esse burburinho, que ecoa nas praças de São Bernardo e nos ônibus de Rio Grande da Serra, é compreensível. Para nós, filhos do berço industrial do Brasil, a palavra “automação” sempre trouxe um misto de progresso e receio. Mas precisamos mudar a lente: o futuro não é um monstro; é uma ferramenta esperando ser dominada.
A transição já é realidade. Nesse exemplo dos caixas automatizados que vemos pelo ABC, não surgiram para eliminar a inteligência, mas para automatizar a repetição. A pergunta de um milhão de dólares não é quem a máquina substitui, mas sim: quem opera, programa, cria e gerencia essas máquinas? Aí reside a nossa maior oportunidade estratégica.
Por isso, o medo de a I.A. “roubar o meu trabalho” deve dar lugar a uma nova competência: “Como posso operar e gerenciar essa I.A.?”. Nossos jovens já manuseiam ferramentas generativas, como o ChatGPT, para acelerar pesquisas e criar vídeos ou dublagens para diversão. O desafio é transformar esse uso recreativo em habilidade profissional para dominar as ferramentas que comandam a produção.
Para se apropriar desse novo “chão de fábrica digital”, o cardápio é vasto: desde Machine Learning (ou Aprendizado de Máquina, em português), que permite que os computadores aprendam com a experiência…até a Engenharia de Prompt a arte de saber perguntar à máquina de forma estruturada para obter o melhor resultado. E a boa notícia é que o saber está a um clique de vontade e um duplo clique de disciplina. Temos o inédito Bacharelado em I.A. da Univesp, cursos de Análise de Dados nas nossas Fatecs e universidades privadas locais que já incluíram o tema em suas grades.
O assunto que já faz parte do dia a dia em grandes cidades, está tomando volume no ABC, o Parque Tecnológico de Santo André oficialmente criado em 2019 e com inauguração da nova sede em novembro de 2025, é uma iniciativa brilhante que serve como o hub necessário para essa transição, conectando mentes criativas ao mercado. Há quem sinta falta de programas mais estruturados, mas é preciso calma: bons encontros já estão acontecendo, o primeiro passo já foi dado e antes de muitas metrópoles pelo Brasil!
Para quem quer começar agora, de forma gratuita e global, aqui estão três portas de ouro:
•Google Cloud Training: Cursos sobre os fundamentos da I.A. Generativa com selo de quem cria a tecnologia. cloud.google.com/learn
•Harvard via edX: O curso “CS50’s Introduction to AI with Python” é uma das melhores bases do mundo. edx.org/school/harvardx
•Fundação Bradesco (Escola Virtual): Opções nacionais, gratuitas e práticas para quem está dando os primeiros passos ev.org.br
Seja você um jovem de Mauá ou um veterano de Ribeirão Pires, o recado é um só: a soft skill – ou seja: ‘habilidades comportamentais’ da nova era é o aprender a aprender. Não tema a I.A.; faça dela o seu braço direito. O ABC nunca parou no tempo, e não será agora que deixaremos de liderar a próxima revolução. O controle da catraca agora é feito pelo robô, mas quem desenha o futuro das cidades são as pessoas.