Poeta do ABC lança livro sobre burnout, ansiedade digital e desencanto geracional no dia 13

Em “Na espera áspera”, Neira Galvêz transforma hiperconectividade, precarização do trabalho e colapso emocional em poemas marcados por ironia, crítica social e niilismo contemporâneo

“Diante desse cenário, somente o escárnio
e o registro oral desbocado, transmitido por
meio de uma ótima noção estética,
parecem dar conta. E é exatamente o que
este conjunto faz”

Trecho do texto orelha, assinada por João Lucas Dusi

“Na espera áspera”, poemário de estreia do poeta e músico Neira Galvêz (@neira.galvez), reflete sobre a contemporaneidade de forma mordaz ao abordar o cansaço crônico, as contradições políticas e as inquietações humanas alimentadas pelo capitalismo tardio. Publicada pela Kotter Editorial com paratextos assinados pelo escritor e editor João Lucas Dusi e quarta capa pela professora Vitória Bressan Marcilio, a obra explora a ironia, o cinismo e o deboche para defender a premissa de que existe um esvaziamento quase inevitável das utopias cotidianas. O autor lança a obra no dia 13 de junho, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, numa tarde de autógrafos no Café Café (Rua Adelaide Pinto Tártaro, 37, Centro).

A angústia existencial da nossa época é exposta a partir de temas como a uberização do trabalho, a mercantilização da fé e a herança histórica de um Brasil escravocrata, moralista e corrupto. Nesse sentido, a professora e especialista em língua portuguesa Vitória considera que a primeira antologia do poeta se concentra em temáticas que abordam o Brasil sob uma perspectiva franca, cuja identificação faz surgir aos leitores um constrangimento singular que só ocorre quando encaramos a verdade — “ou quem sabe o espelho”.

Chama atenção a forma como Neira Galvêz trabalha o tema do excesso de telas e de informação e o colapso da saúde mental como um sintoma: a alienação digital aparece em poemas como “brain rot” e “diário noturno para os sociólogos do futuro” e expõe como certos hábitos nas redes sociais mascaram a insônia e o medo do amanhã. 

O diagnóstico traçado pelo autor é pessimista. “Me sinto como uma testemunha apática do final dos tempos, com a necessidade de comunicar isso”. Mas, apesar do niilismo, o livro não se encerra no desalento. Existe na obra a busca por um recomeço e por “gestos mínimos de resistência e afeto em ruínas”. Por isso, o autor brinca que seus poemas podem ser vistos como um pedido de socorro talvez inócuo para os humanos do futuro. “Apesar de todas as coisas terríveis que relato e diagnostico, considero que é preciso, de alguma forma, encontrar um meio de trabalhar nossa habilidade de ter e dar esperança”, diz.

Neira Galvêz compõe um livro de poemas como uma carta aos arqueólogos do futuro 

Neira Gâlvez nasceu em 1994 em São Bernardo do Campo/SP. Poeta e compositor, publica suas experiências poéticas em sua página do Instagram desde 2017. Tem três álbuns lançados com sua banda, LAVOLTA, além de ter obras gravadas com proeminentes nomes da música underground brasileira como 1LUM3 e Vivian Kuczynski.

Testemunha da decadência de uma região que já foi símbolo da industrialização do país, filho e neto de exilados políticos da ditadura de Pinochet, o autor transita entre o mundo corporativo e a criação artística, tensionando os limites entre a linguagem burocrática e a poesia. Sua escrita, de teor crítico e rebelde, ecoa as vozes de suas influências poéticas como Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Alberto Pucheu e Claudia Roquette-Pinto, mesclando rigor formal com uma inquietação política e existencial. Seus versos, muitas vezes cortantes, interrogam o presente sem perder de vista a memória — seja íntima ou coletiva.

Além da poesia dos autores já citados, Neira se considera muito influenciado pelo mundo da música e seus letristas. Para ele, Clemente Nascimento, Arnaldo Antunes, Renato Russo e Marcelo Nova são excelentes expoentes do bom e velho rock’n’roll brasileiro. Além deles, ele faz questão de ressaltar aos rappers Mano Brown, Rappin Hood, Mv Bill e BNegão, e sobretudo, Marcelo Yuka, como suas referências.

Enquanto preparava o projeto, o autor percebeu que ele queria que seus poemas soassem como uma carta aos arqueólogos do futuro a respeito do fim de uma época. O tom que ele buscou dar para a obra é de um desabafo debochado e pessimista pós-pandêmico, mas sem perder de vista a necessidade de tentar encontrar uma nova perspectiva.

Sua experiência como músico e compositor tornou o processo de escrita do livro um pouco mais fácil: “Ter criado dezenas de músicas nos últimos anos, me ajudou a exercitar o trabalho com as palavras, sobretudo na hora de editar, apagar, sacrificar, frases, em prol do espaço e métrica, sem perder o objetivo e sentido”, completa.

Futuros projetos

O autor está trabalhando em um álbum solo conceitual, que pretende chamar de “Língua morta”,  por tratar a indignação como uma espécie de língua em extinção nos nossos tempos. Além disso, ele confessa estar tentando praticar um pouco de prosa.

Leia o poema “na espera áspera do que está adiante”, de Neira Galvêz:

antigamente o futuro era brilhante
agora tudo é nostalgia serial
como um velório da esperança diletante
ou quarta-feira ao final de carnaval

eu sinto um cansaço que paira no ar
uma apatia geral da plateia humana
quase torcendo para o mundo se acabar,
ou talvez seja eu perdendo a pouca gana…

talvez seja eu sem uma fé praticante
talvez seja eu sem convicções políticas
talvez seja eu, homem deste tempo e instante,

sob sintomas que a ciência não explica.
o que sei é deste amargo que ainda fica
na espera áspera do que está adiante

Ficha Técnica

Livro: Na espera áspera
Autora:  Neira Gâlvez
Rede social do autor: https://www.instagram.com/neira.galvez
Número de páginas: 88
ISBN: 978-65-5361-570-0
Gênero: Poesia
Editora: Editora Kotter
Ano: 2026
Adquira: https://kotter.com.br/loja/literatura/poesia/na-espera-aspera/