A amnésia conveniente na urna brasileira

O cenário eleitoral brasileiro transformou-se em um espetáculo de incoerências. À medida que o país se aproxima do pleito para escolher deputados, senadores, governadores e o presidente da República, o debate público é sequestrado por uma guerra de narrativas onde a memória é a primeira vítima. Candidatos sobem aos palanques e invadem as redes com um único propósito: desconstruir o adversário. O paradoxo central reside no fato de que, na ânsia de conquistar o voto a qualquer custo, os postulantes aos cargos mais altos da nação apontam o dedo para os erros alheios como se suas próprias trajetórias fossem impecáveis.

Assistimos a um festival de acusações de corrupção e má gestão proferidas por figuras que, em um passado não muito distante, compartilhavam os mesmos palanques e privilégios. O parlamentar que hoje critica o fisiologismo já votou por emendas questionáveis; o candidato ao Executivo que condena a crise fiscal já integrou governos contestados. Essa amnésia deliberada subestima a inteligência do eleitor. O pragmatismo das campanhas institucionalizou a ideia de que o passado pode ser apagado por conveniência, desde que o ataque do dia garanta pontos extras nas pesquisas.

Enquanto os candidatos se digladiam em um vale-tudo retórico, os problemas estruturais do Brasil continuam em segundo plano. As propostas reais para a saúde, segurança e educação são sufocadas por dossiês e discursos inflamados que visam apenas o aniquilamento moral do oponente. Essa estratégia de destruição mútua cria uma polarização tóxica, distanciando a sociedade de uma escolha consciente e baseada em projetos estruturados de país.

Os governos e legislativos que emergirão das urnas correm o risco de nascer sob o signo da hipocrisia. A incoerência dos discursos enfraquece a legitimidade das instituições, pois o governante eleito com base no esquecimento de sua história terá pouca autoridade moral para cobrar a ética que tanto defendeu na propaganda eleitoral. A disputa pelo poder não deveria ser uma licença para a falsificação biográfica.

A responsabilidade final recai sobre o cidadão, que precisa atuar como o verdadeiro guardião da história política nacional. Diante de tantas máscaras que caem e se reconstroem ao sabor das conveniências partidárias, o eleitor deve rejeitar o teatro de aparências.

Até quando permitiremos que o futuro do Brasil seja decidido por políticos que fingem esquecer quem foram ontem para tentar comprar quem seremos amanhã?

A direção