A cena se repete em milhares de lares do Grande ABC, logo após o jantar. O filho faz uma pergunta sobre a vida, sobre o dever de casa ou sobre o futuro. Antes mesmo que o pai ou a mãe consiga puxar o ar para formular uma resposta pensada, o jovem já demonstra impaciência no olhar, balança a perna ritmicamente e atira a cobrança: “Vai, mãe! Vai, pai! Me fala logo. Aff, você demora muito para responder!”. A resposta que tiramos do peito é quase um desabafo: ‘filho, eu não sou o Google’.
Estamos testemunhando o maior choque de gerações da história humana, e o campo de batalha é a neurobiologia. Criados em um ecossistema de vídeos ‘shorts’ áudios em velocidade 2x, pesquisas instantâneas e inteligências artificiais que entregam deveres escolares em três segundos, nossos filhos estão desenvolvendo um cérebro moldado para a resposta imediata. Para eles, o intervalo entre o desejo e a entrega precisa ser zero. O problema é que o sistema nervoso humano não passou por uma atualização de fábrica. A paciência, o afeto, o luto, a maturidade, o respirar antes de responder e a própria sabedoria são tecnologias antigas, que só se processam no tempo ‘lento’ da vida biológica e no contexto da nossa própria vida, que a I.A. desconhece.
Quando os filhos nos metralham com a ansiedade da velocidade, a nossa reação quase automática é entrar no mesmo ritmo ou nos irritar. Já sobrecarregados pelo trabalho, pelas notificações da rotina, pelas contas de fim do mês e pela correria do dia a dia, nós aceleramos o passo. Tentamos responder e resolver rápido, encurtar a conversa. Entramos em um estado de alerta permanente, o famoso modo “lutar ou fugir” do nosso sistema nervoso. O resultado dessa sobrecarga de voltagem? Pais exaustos, filhos intolerantes, remédios na cabeceira e um ambiente doméstico onde a ansiedade virou a linguagem oficial. Potencializamos o efeito e anulamos a causa.
Ao nos exigirem velocidade 2x em tudo, os filhos esquecem que a vida não é um banco de dados, mas um oceano de significados. E quando nós aceitamos correr na esteira deles, esquecemos qual é o nosso verdadeiro papel.
Diante da próxima pergunta apressada, o que aconteceria se, em vez de corrermos contra o relógio, nós intencionalmente desacelerássemos? E se ensinássemos que o silêncio que antecede uma boa resposta não é falha no wi-fi, mas o tempo necessário para a alma pensar?
A decisão de acalmar a frequência cardíaca da casa está em nossas mãos. Afinal, ao nos cobrarem o imediatismo, o que nossos filhos realmente precisam receber de nós?