São Bernardo 473 anos. Berço de muitas histórias e da indústria automobilística

Originária da Vila Santo André da Borda do Campo, São Bernardo cresceu e se desenvolveu a partir da industrialização do Brasil e a instalação da indústria automobilística na metade do século 19

João Ramalho e a Vila de Santo André

A história oficial de São Bernardo do Campo é tradicionalmente contada a partir de 1553, quando João Ramalho fundou a Vila de Santo André da Borda do Campo. A localização exata do povoado, porém, permanece incerta. Não há registros arqueológicos conhecidos e, estudiosos divergem sobre onde a vila teria sido instalada: uma das hipóteses a situa na área que hoje pertence a São Bernardo; outra, no vale do Ribeirão Guarará, em Santo André. Também não há consenso sobre a origem de João Ramalho.

Sabe-se que ele chegou ao planalto paulista e passou a viver entre os indígenas. Casou-se com a índia Bartira, filha de um líder dos Tupiniquins – filha do cacique Tibiriçá, e teve importante papel nas relações entre portugueses e nativos. Em 1532, quando Martim Afonso de Souza chegou à região, Ramalho tornou-se seu intermediário e colaborou na fundação de São Vicente, primeira cidade do Brasil.

Em 8 de abril de 1553, a aldeia onde Ramalho vivia foi oficializada pelo governador-geral Tomé de Souza como Vila de Santo André da Borda do Campo. Ramalho foi nomeado alcaide. Poucos anos depois, entretanto, a vila seria extinta. Em 1560, diante dos frequentes ataques dos índios carijós, o governador-geral Mem de Sá determinou a transferência do povoado para as proximidades do Colégio dos Jesuítas, instalado na região. O novo núcleo daria origem à cidade de São Paulo.

Os monges beneditinos e o povoamento

No século XVII, a região conhecida como Borda do Campo, ligada à Vila de São Paulo e cortada pelo caminho de Santos, era ocupada por lavradores e criadores de gado. A população era formada por brancos, mamelucos, negros e indígenas, com presença ainda pequena de mulheres europeias.

Em 1637, Miguel Aires Maldonado doou aos monges beneditinos uma sesmaria que abrangia terras da região. A ocupação efetiva pelos religiosos ocorreu apenas no início do século XVIII, com a instalação de uma fazenda entre o Ribeirão dos Meninos e o antigo caminho de mar. Em 1717, o abade Frei Bartolomeu da Conceição determinou a construção de uma capela dedicada a São Bernardo. Para a ermida foi levada uma imagem do santo, esculpida no século XVII por Frei Agostinho de Jesus.

A fazenda, batizada de São Bernardo, acabou dando seu nome ao bairro e, posteriormente, à região. Nesse período, a escravidão africana também se expandiu. Embora predominassem famílias pobres e sem escravos, havia propriedades com dezenas de cativos, entre elas a dos próprios padres beneditinos.

A construção da Calçada do Lorena, entre 1789 e 1791, facilitou o transporte de mercadorias, principalmente açúcar, entre o planalto e o litoral. Localizada estrategicamente entre São Paulo e Santos, a região de São Bernardo passou a se beneficiar do tropeirismo, atividade que se tornou uma das principais formas de sustento de seus habitantes durante boa parte do século XIX.

Os primeiros traços do centro da cidade esboçavam-se justamente numa época de grande circulação de tropeiros e viajantes pelo caminho do mar, movimento impulsionado pela lavoura de açúcar paulista, que continuava em ascensão. Junto com o açúcar, o tropeirismo – tanto na região como em toda a província – também atingia sua época áurea, uma vez que eram as tropas de mulas as únicas responsáveis pelo escoamento do produto até o litoral.

Todavia, a partir de 1850, ficou evidente às autoridades paulistas o entrave que o transporte por meio de muares representava à agricultura de exportação: a lentidão excessiva, os desperdícios em estradas que permaneciam ruins mesmo com uma manutenção frequente e a precariedade dos ranchos e pousos encareciam excessivamente os custos e tornavam inviável a expansão da lavoura para regiões muito distantes do porto de Santos. Portanto, a construção de linhas ferroviárias, já num momento em que o café havia tomado a hegemonia do açúcar na pauta de exportações da província, garantiu um enorme barateamento no transporte da produção agrícola paulista. Elas foram, sem sombra de dúvida, fatores essenciais para o vertiginoso desenvolvimento que São Paulo alcançou no final do séc. XIX.

No entanto, com o estabelecimento das linhas férreas, foi inevitável a decadência do tropeirismo e com ela também o abandono do caminho do mar, uma vez que, desde 1867, a função dele passou a ser cumprida de forma muito mais eficiente pela estrada de ferro Santos-Jundiaí, cujo trajeto passava pelas áreas das atuais cidades de Santo André e São Caetano. A freguesia, que tinha no transporte por muares um dos seus alicerces, sentiu grandemente o impacto, conforme relatado por testemunhas da época como Azevedo Marques, Junius e Rafardi. Seu revigoramento só ocorreria com a chegada da imigração europeia, alguns anos depois.

O fim do tropeirismo e a chegada das ferrovias

Os primeiros traços do centro de São Bernardo começaram a se formar em uma época de intensa circulação de tropeiros e viajantes pelo Caminho do Mar, impulsionada pela expansão da lavoura de açúcar paulista. O tropeirismo vivia então seu auge, já que as tropas de mulas eram o principal meio de transporte da produção agrícola até o litoral.

A partir de 1850, porém, as autoridades paulistas passaram a considerar o transporte por muares um obstáculo à expansão da agricultura de exportação. A lentidão das viagens, os desperdícios provocados pelas más condições das estradas e a precariedade dos ranchos e pousos elevavam os custos e dificultavam o transporte até o porto de Santos.

A solução foi a construção de ferrovias, justamente quando o café começava a substituir o açúcar como principal produto de exportação da província. O transporte ferroviário reduziu significativamente os custos e contribuiu para o rápido desenvolvimento econômico de São Paulo na segunda metade do século XIX.

A chegada dos trens, contudo, provocou a decadência do tropeirismo e o abandono progressivo do Caminho do Mar. A partir de 16 de fevereiro de 1867, a ferrovia São Paulo Railway agora Santos-Jundiaí passou a realizar de maneira mais rápida e eficiente o transporte entre o litoral e o planalto, com trajeto pelas áreas das atuais Santo André e São Caetano.

São Bernardo, que tinha no transporte por muares uma de suas principais atividades econômicas, sofreu forte impacto com essa transformação. Relatos de testemunhas da época registraram a decadência da freguesia, que só voltaria a se revitalizar alguns anos mais tarde, com a chegada da imigração europeia.

A imigração, os núcleos coloniais e a criação do município

Entre 1877 e 1897, São Bernardo do Campo recebeu intenso fluxo de imigrantes estrangeiros destinados aos núcleos coloniais criados pelo governo imperial. Os colonos recebiam lotes e deveriam preparar a terra, plantar e construir suas casas para, posteriormente, obter o título definitivo da propriedade. Diante das dificuldades – como a derrubada da mata, as grandes distâncias dos centros comerciais e a falta de infraestrutura – dedicaram-se inicialmente ao cultivo de uva, batata, milho, feijão e mandioca, além da extração de madeira e produção de carvão.

Foram criadas 15 linhas coloniais, com 941 lotes, dos quais 795 rurais e 146 urbanos. Nem todos foram ocupados: 545 lotes, distribuídos em 13 linhas, tiveram moradores. Segundo relatório de 1907, viviam nesses núcleos 403 famílias: 239 italianas, 60 brasileiras, 53 polaco-russas, 22 austríacas, 19 alemãs e outras de diferentes nacionalidades. Os italianos, principalmente do Vêneto e da Lombardia, formavam a maioria. Os polaco-russos ocuparam as linhas Rio Pequeno, Capivary e Bernardino de Campos, enquanto os brasileiros eram, em grande parte, antigos moradores da região.

A imigração provocou forte crescimento populacional. O censo de 1900 registrou 10.124 habitantes, quase quatro vezes o número contabilizado em 1872. Décadas depois, a partir dos anos 1930, São Bernardo também receberia imigrantes japoneses, que se estabeleceram na colônia Mizuho, na atual região do bairro Cooperativa.

O crescimento da população foi um dos fatores que fortaleceram o movimento pela autonomia de São Bernardo em relação a São Paulo. Imigrantes participaram, ao lado de políticos locais, do padre Lustosa e de antigos sitiantes brasileiros, da mobilização pela emancipação.

O processo teve início em 1888, com um requerimento e um abaixo-assinado dos moradores encaminhados à Câmara Municipal de São Paulo, além da apresentação do projeto de lei nº 83, de autoria do deputado Lopes Chaves.

Após tramitação, a proposta foi aprovada pela Assembleia Provincial em 27 de fevereiro de 1889. Em 12 de março de 1889, a Lei nº 38, sancionada pelo presidente da Província, Pedro Vicente de Azevedo, oficializou a criação do Município de São Bernardo.

A instalação efetiva ocorreu em 2 de maio de 1890, permitindo ao novo município eleger autoridades e arrecadar impostos.

A primeira legislatura da Câmara dos Vereadores tomou posse em 29 de setembro de 1892, consolidando a autonomia administrativa de São Bernardo do Campo.

As primeiras décadas do século XX e os primórdios da industrialização

Quando se desmembrou de São Paulo e se tornou município, em 1890, São Bernardo abrangia toda a região do atual ABC paulista. A sede administrativa ficava na Rua Marechal Deodoro, inicialmente em um casarão onde hoje está a Praça Lauro Gomes e, depois, no imóvel que atualmente abriga a Câmara de Cultura. São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires e Santo André ainda eram bairros ou distritos do município. Ribeirão Pires se emancipou em 1896; o Distrito de Santo André surgiu em 1910 e São Caetano, em 1916.

No início do século XX, a área correspondente à atual São Bernardo do Campo apresentava desenvolvimento econômico superior ao de outros distritos. Em 1909, respondia por 28% da arrecadação municipal, contra 20% de Santo André, 17% de Ribeirão Pires e 11% de Paranapiacaba. A economia era impulsionada principalmente pela produção de carvão e pelo corte de madeira. Em 1910, havia 68 carvoarias e 18 serrarias na região.

Também se destacava a indústria de móveis, impulsionada pioneiramente por João Basso e que se tornaria uma das marcas da cidade. Na Rua Marechal Deodoro e arredores funcionavam ainda fábricas de cervejas e licores, charutos e sabão.

A partir de uma lei de 1911, que concedia benefícios fiscais a empresas instaladas no município, a hegemonia econômica da sede começou a diminuir. Nas décadas de 1910 e 1920, grandes empresas passaram a se instalar principalmente nas proximidades da ferrovia, favorecendo Santo André, que cresceu em ritmo mais acelerado.

A partir de 1927, parte do território de São Bernardo também foi inundada pela construção da represa Billings, que represou águas dos rios Grande e das Pedras para a geração de energia na usina Henry Borden, em Cubatão.

São Bernardo é rebaixado a distrito e sua emancipação

Nos anos 1930, a rivalidade política entre São Bernardo e Santo André se intensificou. O distrito andreense já reunia grandes indústrias, como Rhodia e Pirelli, enquanto São Bernardo tinha predominância de pequenas e médias fábricas, sobretudo do setor moveleiro.

Santo André passou a reivindicar a transferência da sede municipal, que, na prática, já vinha sendo utilizada por prefeitos.

Em 1938, durante a ditadura de Getúlio Vargas, o interventor estadual Ademar de Barros assinou decreto transferindo a sede do município para Santo André e rebaixando a antiga Vila de São Bernardo à condição de distrito.

A reação deu origem ao movimento autonomista. Empresários, comerciantes, profissionais liberais, funcionários públicos, operários e populares passaram a se reunir no Bar e Café Expresso, na esquina das ruas Marechal Deodoro e Dr. Flaquer. Por sugestão de Bortolo Basso, o grupo procurou o empresário e banqueiro Wallace C. Simonsen, que possuía uma chácara na cidade e tinha influência política.

Em maio de 1943, sob sua liderança, foi fundada a Sociedade dos Amigos de São Bernardo, reunindo, entre outros, Pery Ronchetti, Nerino Colli, Ítalo Setti, Gabriel Nicolau, Plínio Ghirardello e Bortolo Basso. O grupo aproveitou uma reforma administrativa planejada pelo governo estadual para solicitar a emancipação, argumentando que o distrito já apresentava população e arrecadação suficientes para voltar à condição de município.

A mobilização resultou no decreto-lei 14.334, de 30 de novembro de 1944, que elevou novamente São Bernardo do Campo à categoria de município. Em 1º de janeiro de 1945, o novo município foi instalado com o nome de São Bernardo do Campo. Wallace C. Simonsen foi nomeado prefeito e governou até 1947.

Industrialização de São Bernardo e a transformação em metrópole

A inauguração da Via Anchieta, em 1947, iniciou uma nova fase de crescimento. A estrada facilitou a logística, enquanto a disponibilidade de mão de obra e incentivos fiscais atraíram empresas estrangeiras.

Nas décadas de 1950, 1960 e 1970, a instalação de grandes montadoras, como Ford, Scania e Volkswagen, além de fábricas de autopeças, transformou São Bernardo em um dos principais polos industriais do país. A expansão industrial elevou fortemente a arrecadação municipal e atraiu milhares de migrantes de diversas regiões brasileiras.

A população, que era de cerca de 29 mil habitantes em 1950, chegou a 425 mil em 1980. Segundo o Censo do IBGE daquele ano, 292 mil eram migrantes. São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Paraná e Ceará estavam entre os principais estados de origem. O crescimento populacional transformou profundamente a paisagem: antigas chácaras e sítios dos núcleos coloniais deram lugar a loteamentos urbanos, regulares e irregulares, formando novos bairros e convertendo a antiga vila em uma grande metrópole.