40 anos da Nova República Velha

Max Marianek

Max Marianek

21 de Março

Nesta semana, ocorreu no Congresso Nacional uma sessão solene em comemoração aos 40 anos da redemocratização no Brasil, evento bastante sintomático do que a democracia representa em nosso país.

O símbolo desse evento foi a homenagem ao ex-presidente José Sarney, um político oligárquico, governador do Maranhão durante a Ditadura Militar e membro, desde 1965, do partido de sustentação do golpe de 1964, a ARENA. Sarney permaneceu no partido da ditadura até o último momento, e somente em 1984 migrou para o MDB, concorrendo como vice na chapa de Tancredo Neves.

Em síntese, um apoiador do golpe de 1964 que só abandonou a ditadura quando percebeu que a mudança de regime era inevitável. Esse é o tipo de figura homenageada pela democracia brasileira.

Outro ponto digno de nota é que a sessão foi presidida pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, político ligado a grupos oligárquicos da Paraíba e sucessor de Arthur Lira, igualmente vinculado a oligarquias de Alagoas.

Feitas essas observações, que revelam um pouco do espírito da nossa redemocratização, devemos nos perguntar: a Nova República é realmente uma novidade ou a continuação histórica das sucessivas fases da nossa trajetória nacional, marcada pela alternância entre regimes autocráticos (ditatoriais) e democracias oligárquicas (autocracias institucionalizadas)?

Parece-nos acertada a avaliação de Luís Carlos Prestes em sua famosa entrevista ao programa Roda Viva, em 1986: “Na minha opinião, não há nenhuma Nova República. Se há alguma Nova República, ela nasceu igual à Velha. Não houve nenhuma alteração em profundidade. Todas foram superficiais. Eu nego, portanto, a existência de uma Nova República.”

Ao analisarmos o processo de transição — lento, gradual e seguro — da ditadura empresarial-militar para a democracia, percebemos muitas continuidades e duas vitórias fundamentais para a classe dominante brasileira.

A primeira vitória foi a ausência de transformações na estrutura produtiva e no modelo econômico herdado da ditadura, o que perpetuou a miséria de amplas camadas da população, manteve a estrutura fundiária colonial e a industrialização subordinada ao capital estrangeiro. Desde o início, os setores dominantes criaram obstáculos a qualquer transformação na base produtiva e na propriedade no Brasil, restringindo o debate a mudanças no aparelho institucional e na política.

Essa vitória também está ligada ao apagamento dos debates do movimento popular do período pré-64. Com o fim da ditadura, desapareceu de cena o melhor do debate de esquerda e nacionalista. Não se falava mais em reformas de base, mas em programas de distribuição de renda, como se fosse possível, em uma estrutura produtiva geradora de miséria, acoplar à circulação um processo de distribuição que corrigiria os graves problemas dessa estrutura.

A segunda vitória foi a realização da transição, em linhas gerais, da maneira como a elite brasileira e os militares entendiam que o processo deveria ocorrer. Obviamente, houve algumas derrotas para esses setores, mas, no fundamental, a transição aconteceu de forma segura e gradual, o que fica bem sintetizado na ausência de punição aos torturadores e na manutenção da tutela militar sobre o Estado brasileiro.

Citando mais uma vez Luís Carlos Prestes no Roda Viva de 1986: “Em qualquer democracia burguesa, as Forças Armadas são um instrumento do Estado. No Brasil, as Forças Armadas é que ditam ao Estado o que deve fazer. E continua a mesma coisa. De maneira que não houve nenhuma alteração profunda. Houve alteração, naturalmente, em elementos táticos. Hoje já podemos chamar os generais de torturadores e eles ficam calados. Porque, do ponto de vista tático, para eles é melhor calar, realmente.”

Por isso, quanto mais o tempo passa, mais a Nova República nos lembra a República Velha, com suas oligarquias, a primazia da exportação de matérias-primas e a degradação das condições de trabalho.

Max Marianek
Graduado em História
Funcionário Público

Max Marianek

Max Marianek

Max Marianek é Professor de História e Funcionário Público